Saturday, December 12, 2009

Texto e fotos da tertulia sobre a Magia em Fernando Pessoa com Pedro Basto de Almeida


Com a presença do Vice Presidente da Câmara Muncipal de Alenquer, Dr. João Hermínio, decorreu com o habitual sucesso e agrado geral a última Tertúlia no Bar do Além, do ano de 2009 num almoço debate com cerca de 50 participantes já em ambiente de Natal.

Fica aqui o registo das fotos e do texto de apoio de Pedro Basto de Almeida...




Tertúlia do Bar do Além
Fernando Pessoa e a Alta Magia
- subsídios para a história da Magia em Portugal -
Alenquer – 12 de Dezembro de 2009

Apresentação:
Voltamos a ter o prazer de tomar parte, como oradores, numa sessão da Tertúlia do Bar do Além, pela terceira aqui vindo dar conta da evolução das nossas investigações acerca do percurso ocultista e esotérico de Fernando Pessoa.

De facto, já em 11 de Dezembro de 2004, a propósito dos contactos entre Pessoa e Crowley, e em 8 de Dezembro de 2006, sobre a biblioteca esotérica de Fernando Pessoa, beneficiámos do debate nesta tertúlia para fazer ponto de situação e obter contributos da maior utilidade para delinear os passos seguintes destes nossos estudos.

Gostaríamos de proporcionar, com esta nossa intervenção, um verdadeiro ambiente de tertúlia, pois pretendemos antes de mais lançar, na medida do possível, tópicos para debate entre todos os presentes, esperando que o tema que vos trazemos seja suficientemente motivador da discussão e, igualmente, que as vossas intervenções possam constituir estimulo e crítica para o nosso trabalho de investigação.

Para os que ainda não nos conhecem, importa que apresentemos o GIFI – Associação Portuguesa para a Investigação. A nossa associação, que celebrou o seu trigésimo terceiro aniversário no passado mês de Dezembro de 2009, tem como missão o trabalho nas “fronteiras da ciência”, no sentido de termos em vista a realização de investigação nos limites (ou para além do limite) dos conhecimentos científicos actuais. Também recorremos à expressão “limites do conhecimento”, pelo facto de nos nossos estudos nos movermos em terrenos propícios à crença, quer num sentido religioso ou espiritual, quer no que costumamos definir como “crença na ciência”.

Não se trata de pretendermos colocar em causa, criticar ou escrutinar crenças alheias que, antes de mais, respeitamos, mas sim de afastar, tanto quanto possível, as nossas próprias crenças individuais do processo de raciocínio desenvolvido durante investigação. É, certamente, uma vantagem para esse processo de objectivação de raciocínio o facto de no GIFI trabalharmos normalmente em grupo.

A investigação acerca de Fernando Pessoa, no entanto, tem sido essencialmente um esforço de carácter pessoal, razão adicional para me submeter ao espírito crítico, bem informado, dos membros desta tertúlia.


De outro ponto de vista, com os limites e a prudência adequados, as crenças em si próprias consideradas têm sido objecto relevante do nosso estudo. Já o combate à “crença na ciência” e à “pseudo-ciência” constitui um dos nossos objectivos principais, na medida em que nos parece ser actualmente uma das mais sérias violações do genuíno conhecimento humano. Manifestamo-nos, assim, contra a tentação positivista de procurar tudo explicar através da ciência, mesmo quando se deveria assumir, no mais puro espírito científico, a nossa ignorância, mas recusamos também todas as formas de proselitismo malevolamente encoberto por vestes académicas ou similares.

Magia
A palavra “magia” desperta nas nossas mentes ocidentais, do início do século XXI, um conjunto quase-anárquico, de referenciais, da bruxa do meio rural aos feiticeiros dos contos para crianças, do ilusionista mediático aos sofisticados neo-paganistas, do espectador da “magia do cinema” aos fiéis dos cultos sincréticos afro-brasileiros, do esoterista que procura tornar-se o “Homem-Deus” ao necessitado que se encomenda ao Criador através dos “ex-votos”.
É, de facto, muito difícil encontrar uma definição final e absoluta de magia. Talvez seja até melhor assim, pois parece que não haverá apenas uma magia, mas sim várias formas de culto, ritual, religião, espiritualidade, esoterismo, ocultismo que poderemos enquadrar ou cruzar com esta expressão.

Devemos, de toda a forma, adiantar algumas pistas.
Refere Mircea Eliade que no âmbito do Zoroastrismo os Magos eram a “Classe de sacerdotes dos antigos Medos. Presidiam aos sacrifícios e expunham os cadáveres às aves de rapina e às intempéries. No mundo helenístico os Magos terão a reputação de serem depositários de uma sabedoria oculta”.


Para P. G. Maxwell-Stuart, numa tradução livre da nossa lavra, magia pode ser definida, de forma sumária como a “crença em que os seres humanos são capazes de controlar, coagir e manipular as forças ocultas da criação, quaisquer que estas sejam, através de técnicas rituais.”, sublinhando ainda que os três principais objectivos da magia são “contactar forças superiores, sejam estas divinas, naturais ou demoníacas; exercer poder para além do que as suas capacidades naturais poderiam usualmente possibilitar; e usar esse poder tanto em seu próprio benefício, como para benefício de outros ou ainda para satisfazer um impulso maligno, seja este próprio ou emanado de outra pessoa”.

Na colectânea de textos organizada pelo referido P. G. Maxwell-Stuart, da qual constam as passagens que acabámos de transcrever, é apresentado4 um excerto de uma obra do jesuíta e inquisidor português Benito Pereira (numa obra de 1591, “Adversus Fallaces et Supertitiosas Artes”), na qual este distingue a “Magia Natural, na qual maravilhas são criadas pelos artifícios individuais de certas pessoas, que fazem uso de coisas naturais.” e a “Magia Não-Natural que invoca espíritos maus e usa o seu poder para as suas operações” a qual pode ser subdividida em “Teurgia, Goetia e Necromancia”. Ainda na mesma obra, o compilador dos textos assiná-la, a nosso ver correctamente, que “A feitiçaria é uma forma de magia e as feiticeiras são quem executa a feitiçaria.”. Repare-se, feitiçaria no sentido da palavra inglesa “witchcraft”, que nos remete para a actualmente tão em voga “wicca”.

Parece também claro que Magia e Kabbalah se encontram intimamente relacionadas, no âmbito do que poderemos definir como o esoterismo ocidental. A este propósito, sintetiza P. G. Maxwell-Stuart (em nossa tradução livre) “A palavra “Kabbalah” deriva do hebreu qabbalah significando “tradição”. Há várias formas pelas quais pode ser soletrada: “Cabala” é uma outra”. Kabbalah é a técnica de ler e interpretar a Bíblia, especialmente o Pentateuco...” “... também envolve o conceito chave do que é conhecido como a “Árvore da Vida”, uma estrutura simbólica constituída por dez emanações do divino, com dez nomes, atributos, poderes e diversos caminhos entre si, todos expressando uma noção de Deus em mundos ou planos sucessivamente mais elevados.

A contemplação destas emanações, ou Sephiroth, conduz não apenas a um maior entendimento da natureza de Deus, que, em contrapartida, conduz o Kabbalista cada vez mais perto de uma visão de Deus ele mesmo, mas também a um mais detalhado conhecimento das diferentes formas nas quais os poderes divinos operam através dos vários mundos. Este conhecimento pode ser utilizado pois os nomes que o sujeito encontra no decurso da sua contemplação são nomes de poder e a habilidade para reconhecer e manipular estes nomes concede uma imensa e potente autoridade à pessoa que tenha dominado esta técnica. A importância da Kabbalah para a magia, em consequência, dificilmente pode ser exageradamente afirmada.”.


Já para William Wynn Westcott, um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn), maçon dos mais ilustres, membro da Sociedade Teosófica e Mago Supremo da SRIA (Societas Rosacruciana in Anglia), “A Alta Magia do verdadeiro rosa-cruz é o conhecimento de como perceber, com os poderes mentais do homem inferior, os reflexos irradiados pelo homem espiritual para guiá-lo e instruí-lo.” ou, em resumo “... a Sabedoria Espiritual é a verdadeira Alta Magia...” .


De forma bem mais sumária e com refinado sentido de humor, Aleister Crowley no seu artigo “The revival of Magick” refere-se à magia – que denomina “Magick” – dizendo que a mesma “... pode ser definida para o nosso presente propósito como a arte de comunicar sem meios óbvios.”
E Pessoa, nos seus múltiplos escritos e reflexos, muitos dos quais sobre matéria espiritual e esotérica, falou ele próprio acerca da magia ? Com base nas recolhas realizadas no espólio pessoano, Yvette K. Centeno transcreve a seguinte passagem do texto “A Ordem do Subsolo” (espólio 54-97):

“Se esses ensinamentos occultos são verdadeiros, ou apenas especulações abstrusas, é outro problema. Se os hierophantes do occulto teem, na verdade, maior conhecimento da verdade pura do que nós profanos, que a buscamos, se a buscamos com a leitura, ou a meditação, ou a inteligência discursiva e dialéctica – não o podemos nós saber. Tudo isso pode ser sinceramente criado pelos iniciados e ser falso. O occulto pode ter hallucinações próprias, enganos seus.


Seja como for, o certo é que os ensinamentos ministrados nos mysterios abrangem três ordens de coisas: 1) a verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte, 2) a verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las, e 3) a verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da creação do mundo. São, respectivamente, o segredo alchimico, o segredo magico, e o segredo mystico.”

A mesma autora dá-nos ainda a conhecer10 esta outra passagem (espólio 54-33/37): “A obra de magia contém trez elementos, ou antes são trez as obras de magia: 1) o conhecimento e conversação do Santo Anjo da Guarda, 2) o conhecimento (atravez d’elle) dos Deuses acima d’elle, regentes do Seu mundo, 3) o uso ou auxílio d’esses Deuses nas operações sobre nós e sobre os outros.”

E, ainda numa citação com a mesma origem11, veja-se a seguinte reflexão do poeta acerca da iniciação (Espólio 54ª-52): “There are three distinct types of initiation – symbolic or outer, intellectual (outer of inner), and vital (inner). In the symbolic initiations, which reinforce the will and therefore lead to Magic as attainment, the candidate does not pass through stages of understanding, but through stages of intuition, so to speak; he is continually on the surface and appearance of things, and, though he attains the highest degree in whatever order or orders he goes through, that highest degree need not correspond (generally does not correspond) to anything like a parallel degree in any other of the inner initiations. In the intellectual initiations, which reinforce the intellect and therefore lead to Mysticism as attainment, the candidate passes through stages of understanding, but not through stages of life; he may know much, but he need not live that which he knows on the same level as he knows it. In the vital initiations, which reinforce the emotion and therefore lead to Alchemy as an attainment, the candidate lives that which he feels and knows.
(Is this right ? Do not rather these initiations differ on another score, whereas the difference between Magic, Mysticism and Alchemy (what of Gnosis ?) lies on another plane of interpretation ? Are not these initiations rather physical, etheric and astral ? (or, perhaps, etheric, astral and spiritual, or astral, mental and spiritual ?)
- Possibly there are three modes in which initiations can be interpreted: (1) the three ways of attainment, magical, mystical and Gnostic, (2) the three stages of attainment, Neophyte, Adept and Master, (3) the three degrees of attainment, astral, mental and spiritual.”

Fernando Pessoa, ocultismo, magia e Alta Magia
O génio de Fernando Pessoa e o facto de ter sido erigido “poeta do regime”, após o 25 de Abril, suscitam uma enorme atenção e interesse relativamente a todos os pormenores da sua vida. Para tal atracção contribui decisivamente o enorme acervo de que dispomos relativamente ao poeta. Escritor impenitente, autentico habitante da palavra, Pessoa deixou milhares de escritos, em verso e em prosa, completos e fragmentários, sobre uma enorme diversidade de assuntos, todos desembocando, de alguma forma, em si próprio.

Estudar o espólio de Fernando Pessoa é tarefa fundamental para conhecer o poeta. Do ponto de vista em que nos colocamos, é uma via extremamente produtiva para encontrar fontes sólidas para conhecer a história do esoterismo em Portugal, nas primeiras três décadas e meia do século XX.


Pessoa era, sem margem para dúvidas, um apaixonado pelo ocultismo, para recorrermos à terminologia mais em voga na sua época. Mas, terá chegado a ser um ocultista ?


O nosso terreno é o da História, pelo que nos interessam acima de tudo os factos que possam contribuir para dar resposta a tal questão. Neste caso, factos que, antes de mais, nos são facultados pelo próprio Fernando Pessoa. Sabemos actualmente, sem margem para dúvidas, que Fernando Pessoa se dedicou à astrologia, em termos teóricos e práticos, bem como que manifestou apreço pela maçonaria – indicando não lhe ter pertencido – e tendo chegado a apresentar-se na sua nota biográfica de 1935 como “cristão gnóstico”, com a seguinte “Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal”.


Este é, porém, o final da história.
Tracemos um breve quadro cronológico acerca do trajecto de Pessoa nas vias do ocultismo, conferindo especial atenção à componente mágica, que aqui nos interessa particularmente.
Tendo nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1888, assinala Yvette Centeno que logo em Setembro de 1906, num caderno do heterónimo “Alexander Search” se encontram referências a bibliografia ocultista, concretamente de Berthelot, Papus e, numa outra nota, de Paulhan. No âmbito da correspondência de Fernando Pessoa, encontramos uma primeira nota com carácter potencialmente esotérico data de 8 de Setembro de 1914, tinha o poeta 25 anos, quando escreve a Sampaio Bruno, que não conhece, declarando o seu interesse pelo patriotismo e atracção pelo Sebastianismo, afirmando mesmo serem os livros de Bruno uma bússola que lhe manda fazer do autor o seu Norte.


Sabemos que Pessoa se interessou pelo espiritismo e pela teosofia. Está, aliás, actualmente demonstrado que se dedicou à escrita automática, com particular enfoque nos anos de 1916 e 1917. Pese embora o facto de ter colocado totalmente em causa o valor dessas comunicações, mostram as fontes disponíveis que voltou a recorrer a essa técnica, pelo menos até 1930.

Neste contexto Pessoa escreve a 6 de Dezembro de 1915 a Mário de Sá-Carneiro, referindo-se, em tom globalmente dubitativo e crítico, à Teosofia, pois muito embora a considere próxima do seu paganismo, repugna-lhe o “… seu humanismo e apostolismo…”.


Decisivamente, a espiritualismo esotérico sincrético – Oriente / Ocidente – não lhe agradava. Como refere Richard Zenith, Pessoa escreveu sobre teosofia considerando que se trata de uma “detestável sub-imposturice indiana” e, assinando como Rafael Baldaia e de forma mais suave, dizendo ser “apenas uma democratização do hermetismo. Se se quiser, é uma cristianização dele. Mais nada.” Mas a carta a Sá-Carneiro contém uma outra pista, porventura mais relevante para o nosso estudo. Nesse escrito, Fernando Pessoa compara a perturbação que a Teosofia lhe causou com aquela que resultou “… há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na teosofia, esteja a verdade real me “hante”.”

Diga-se que “hanté”, em francês, significa assombrado, no sentido fantasmagórico do termo. Parece certo que o livro referido possa ser o que consta da biblioteca pessoana com a entrada 0-12 Jennings, Hargrave, The rosicrucians, their rites and mysteries, 4th. ed. London: George Routleoge and Sons, New York: E. P. Dutton and Co., (1--?), 464 p. De acordo com as referências que encontrámos, o livro em causa é de 1870, pelo que a sequência temporal permanece ajustada.

Não haverá, que conheçamos, nenhuma forma de esclarecer em que altura, exactamente Pessoa leu, com tanto impacto, a obra em referência, cujo autor, do século XIX, é apontado como tendo pertencido a um “certo ramo da Ordem Rosacruciana, por volta de 1860” e que teve amigos celebérrimos como Paschal Berverly Randolph, Eliphas Lévi ou Edward Bulwer-Lytton. O que é certo é que Pessoa leu esta obra com toda a atenção, pois há sinais claros, nos múltiplos sublinhados e notas que ali deixou, de a ter lido atentamente pelo menos em duas ocasiões.


Um indício desta leitura ter sido relativamente prematura, no trajecto de vida de Fernando Pessoa, é o de serem em grande número as anotações centradas em bibliografia citada na obra, que o poeta vai anotando a margem com a menção “read” ou semelhante. Não encontrámos, até ao momento, situações similares noutras obras da biblioteca pessoal do poeta que estudámos, as quais são claramente posteriores, em termos cronológicos.


Em 24 de Junho de 1916, Pessoa escreve à sua tia Ana Luísa Nogueira, referindo-se amplamente à escrita automática, à sua mediunidade (“Aí por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium.”) e ao facto de ter passado a ter tendência para desenhar “… sinais cabalísticos e maçónicos, símbolos do ocultismo e coisas assim que me perturbam um pouco.”.
É tentador relacionar-se este surto mediúnico com a morte de Mário de Sá-Carneiro, que se suicidou em Paris a 26 de Abril de 1916. A questão é que, conforme se anotou, é o próprio poeta quem situa o início do fenómeno cerca de um mês antes da morte do seu maior amigo.


Na mesma carta, é dito ainda que:
“As comunicações actuais são, por assim dizer, anónimas e sempre que pergunto “quem é que fala?” faz-me desenhos ou escreve-me números.” E mais adiante:
“É singular que, apesar de eu não perceber nada de tais números, consultei um amigo meu, ocultista e magnetizador …Explicou-me apenas que esse facto de eu escrever números era prova da autenticidade da minha escrita automática – isto é, de que não era auto-sugestão, mas mediunidade legítima. Os espíritos – diz ele – fazem essas comunicações são, por isso mesmo, incompreensíveis ao médium, e de ordem que mesmo o inconsciente dele era incapaz de imaginar.”.


Manuela Parreira da Silva refere como hipóteses de identificação do “amigo ocultista e magnetizador “ Fernando de Lacerda ou Mariano Santana24, citando, respectivamente, João Gaspar Simões, em “Vida e Obra de Fernando Pessoa” e Eduardo Freitas da Costa. Fernando de Lacerda (1865 – 1918) foi, de facto, um importante espírita português. No entanto, estaria a viver no Rio de Janeiro desde 1911, razão pela qual consideramos esta sugestão, pelo menos, muito duvidosa.


Já Mariano Santana era, segundo as nossas fontes, “frequentador da tertúlia da Brasileira e amigo de Pessoa, que a ele se refere, por exemplo, em cartas para Ofélia Queirós.”. Pedro Teixeira da Mota refere-o entre aqueles com quem Pessoa manteria “… conversa ocultista e espiritual…”, sem outros detalhes. Não conseguimos obter, até ao momento outros dados relevantes sobre esta personagem. Seria, no entanto, interessante lograr desenvolver esta via de investigação, pois as referências de Pessoa aos resultados da sua mediunidade – sem crermos exagerar – lembram-nos bastante mais as comunicações através de signos e números referidas a propósito das evocações e invocações da Alta Magia, do que propriamente o que conhecemos da escrita automática dos espíritas Kardecistas.


Registe-se que em 1919 (ou 1918) Pessoa escreve “Um Caso de Mediunidade” onde desconstrói e crítica fortemente o espiritismo e a mediunidade, qualificando-os como perturbações mentais, texto no qual também se refere, em conclusão, ao espiritismo, que considera dever ser “proibido por lei”. No mesmo texto, num claro momento de rejeição do ocultismo, diz até “O que Deus fez oculto (se Deus fez alguma coisa oculta) é para se conservar oculto. Se não, ele tê-lo-ia feito claro.” e para terminar, mais adiante, “Graecia Mater, dirige-nos !”


A 6 de Março de 1917 Fernando Pessoa escreve a Frank Hollings (Londres), agradecendo o envio de catálogo de livros sobre o oculto e encomendando o “Book 777”. Trata-se do Liber 777, presente na biblioteca do poeta sob a entrada 2-1 777: vel prolegomena symbolica ad systemam sceptico misticae viae explicandae – fundamentum hieroglyphicum sauctissimorum scientiae summae”, London (etc.), The Walter Scott Publishing Co., 1910, 54 p..


O “Liber 777” trata-se de um dicionário de correspondências de elementos mágicos, que Aleister Crowley pretendia constituir para o ocultismo o que “... Webster or Murray is to English language.”. Neste volume Pessoa nada anotou de relevante, com excepção de um curto sublinhado no texto introdutório, onde Crowley sustenta que aprendeu a não usar os pontos de vista do céptico e do místico segundo a mútua tolerância dos sub-contrários, mas sim através afirmação dos contrários, o que, em seu entender, implica uma transcendência das leis do intelecto, que corresponde à loucura no homem comum e à genialidade no super-homem.


Muito embora, como se assinalou, o livro não identifique Crowley como seu autor, o facto é que o volume contém de forma absolutamente clara a indicação de se tratar de uma edição da A A (isto é, da “Argenteum Astrum”, uma organização esotérica liderada pelo Mago inglês), a qual é ali expressamente definida (em tradução livre de nossa lavra) como “... um conjunto de pessoas que conseguiram atingir a condição que tem sido várias vezes descrita como... “ a de “santos”, “mahatmas”, “mestres”, “adeptos” “... e assim por diante, consoante os acidentes de tempo e de lugar.”. Em suma, pelo menos em 1917 já Pessoa tinha conhecimento da existência desta Ordem Mágica, da linha thelémica crowleyniana.


Em 26 de Maio de 1919 Fernando Pessoa escreve a Herbert Jenkins (Nottingham), referindo-se a um anúncio surgido no The Times de 11 de Maio de 1916, sobre o livro “Secret Shakespearean Seals”, que não chegou a encomendar, mas sobre cuja disponibilidade para encomenda inquire. Trata-se do volume presente na biblioteca pessoana sob a entrada 8-481 Rosa-Cruz, Frades, Secret Shakespearean seals: revelations of Rosicrucian Arcana: discoveries in the Shakespeare plays, sonnets and works printed circa 1586-1740. Nottingham: J. Jenkins, 1916. VII, 88 p.


Mais tarde, a 20 de Junho de 1919, escreve também a Frank Woodward, respondendo a carta deste. Trata-se de um dos autores do livro que acabámos de indicar, que não terá gostado dos comentários de Pessoa ao facto do livro ser atribuído aos “Irmãos Rosa Cruz”, que o poeta considera “um exemplo de uma assumpção comum (embora impossível).”


De toda a forma, importará sublinhar que estas interessantes – e plenas de humor – referências à Rosa Cruz tem, em rigor, mais que ver com o interesse específico que Pessoa dedicou à questão de saber se a obra de Shakespeare seria, afinal, da autoria de Francis Bacon ou, até, de um grupo de pessoas. Essa será, em si própria, uma temática de estudo autónoma, que aqui não poderemos desenvolver.

A 29 de Novembro de 1920 escreve uma carta de “fim de namoro” a Ofélia Queirós onde afirma “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinada cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”. Será, prosaicamente, uma forma despeitada de justificar o fim da relação amorosa ou um momento de exacerbação, na qual revela em escrito algo que até então tinha mantido no seu intimo, sem revelar sequer à mulher amada ?


Prosseguindo no seu pertinaz interesse acerca da Rosa Cruz, a 24 de Setembro de 1924 escreve às Éditions Adyar, Paris, para encomendar a obra que consta da sua biblioteca como a entrada 0-24 Witemans, Fr., Histoire des Rose-Croix, Pref. W. H . Denier van der Gon, 3 ème ed., Paris: Adyar, 1925. 233 p.. Pela data de edição constante do volume, parece certo que a encomenda só teve resposta no ano subsequente, 1925.


Aproveitemos o ensejo para referir que a biblioteca de Fernando Pessoa, tal como se encontra preservada na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é integrada por um total de 1055 volumes. Temos vindo a realizar, desde 2003, uma investigação sistemática acerca dos livros sobre esoterismo constantes do referido acervo, tomando como objecto de fundo do estudo as notas e sublinhados de Fernando Pessoa apostas nessas obras. Importa esclarecer que há outros volumes que integraram a biblioteca de Pessoa que não se encontram na Casa Fernando Pessoa, mas sim, ainda, na posse de familiares. Embora nos tenha sido manifestada disponibilidade para que acedêssemos a esse acervo, tal ainda não nos foi possível.

Uma primeira constatação, que nada espanta, é a de a área de formação e de vocação de Fernando Pessoa – língua, linguística e literatura - congregar 56,11% dos volumes que integram a biblioteca. Em termos analíticos, no que se refere à temática da nossa recolha, verificamos a seguinte subdivisão de volumes, por classe: Classe 0 – Generalidades, progresso, obras de referência, periódicos, organizações de carácter esotérico e semi-secreto: 17 em 24 volumes, isto é 70,83%.


É o que se esperaria, tendo em conta a menção expressa, na temática da classe, ao esoterismo, mas não deixa de ser relevante que a amplitude do interesse de Pessoa por este tipo de assuntos se revele de forma tão expressiva numa classe, ainda assim, integrada por temas muito diversificados.
Classe 1 – Filosofia: 58 em 162 volumes, o que significa 35,80%.
Pese embora nos pareça discutível a integração nesta classe de vários volumes, que melhor caberiam, porventura, na classe anterior, pode-se tomar em linha de conta uma dupla observação, pois não só confirmamos pela análise da sua biblioteca o sério interesse que o poeta dedicou à filosofia, como também podemos qualificar, sem grandes hesitações, a filosofia esotérica como umas das áreas às quais dedicava especial atenção.
Classe 2 – Religião, Teologia: 3 em 74 volumes, correspondendo a 4,05%.
Neste caso sentimos a necessidade de ser mais críticos: em rigor, nenhum dos três volumes considerados deveria, a nosso ver, estar integrados nesta classe, pois pareceria mais curial a sua integração numa das duas classes anteriores.
Classe 3 – Ciências Sociais: 1 em 76 volumes (1,32%).
O volume único em apreço trata-se da Lei das Sociedades Secretas, de 21 de Maio de 1935, pelo que parece correcta a integração nesta classe, sendo igualmente óbvio o interesse que Fernando Pessoa dedicou ao assunto, como atesta o seu célebre artigo, publicado no “Diário de Lisboa” a 4 de Fevereiro de 1935.
Classe 5 – Matemática, ciências naturais: 1 em 33 volumes (3,03%).
Trata-se de um livro sobre astrologia, que por força do seu título foi claramente mal classificado, como se de um estudo acerca de astronomia se tratasse.
Classe 6 – Ciências aplicadas, medicina, tecnologia: 0 em 11 volumes (0%).
Classe 7 – Arte, desporto: 0 em 11 volumes (0%)
Classe 8 – Língua, linguística, literatura: 7 em 592 volumes, o que significa 1,18%.
Os livros desta classe que integrámos na nossa listagem resultam de situações bastante particulares, justificativas da sua classificação na mesma: a “autohagiografia” de Aleister Crowley; dois livros portugueses sobre a temática sebástica e do quinto império; dois livros sobre esoterismo na literatura; uma obra de Aldous Huxley cujo título corresponde a uma máxima de Aleister Crowley e, por fim, uma obra de Yeats, que é esotérico, pelo menos, ele próprio, nomeadamente pela sua documentada participação na Golden Dawn.
Classe 9 – Geografia, biografia, história: 3 em 72 volumes, ou seja 4,16%.
A presença nesta classe de volumes integrados na temática esotérica não merece qualquer comentário particular, pelo que reservaremos a nossa atenção para os livros que aqui estão em causa, individualmente considerados.


São, portanto, 90 os livros registados na nossa listagem, o que nos permite quantificar a temática que nos importa neste estudo em 8,53% da biblioteca de Fernando Pessoa. No entanto, se realizarmos o cálculo sem considerar os livros constantes da classe 8, isto é, afastando por um momento a literatura do nosso campo de visão, concluímos que os livros sobre esoterismo e espiritualidade são 15,77% da biblioteca do poeta (73 em 463). Na listagem que elaborámos predominam os livros em língua inglesa (68), sendo 14 os volumes em língua francesa e apenas 8 os itens listados em português.


De entre as edições inglesas, registe-se a presença de 12 volumes editados pela “Modern Astrology Office”, 6 pela “Rider and Co.”, 5 da “William Rider And Son”, 3 da “W. Foulshan & Co.”, 2 da “Kegan, Paul, Trench, Trubner and Co.”, 2 da “The Teosophical Publishing Society”, 2 da “Chatto and Windus” e 2 da “A. Lewis”, todas editoras de Londres. Nas editoras francesas destacam-se, na nossa listagem, a Adyar (3 volumes) e a Daragon (2). Em Lisboa, merece referência especial para a Clássica Editora, origem de metade dos livros em língua portuguesa que acima referimos.


Quanto aos autores, a esmagadora maioria surge na listagem com apenas uma obra. São excepções:
Alan Leo, com 8;
Sepharial com 5;
Aleister Crowley com 3;
Arthur Edward Waite com 3;
H. S. Green com 3;
Edwin Raphael com 3;
George Wilde com 3;
A. Lida Churchill com 2;
C. W. Leadbeater com 2.
Dos 90 livros da listagem 36, isto é 40%, referem-se a astrologia (30) e a artes divinatórias (6), o que confirma a predilecção de Pessoa por esta temática. Tendo em conta a temática específica em que neste momento devemos centrar a nossa atenção, as sociedades iniciática e, especialmente, a magia, estão em causa 54 volumes da biblioteca de Pessoa.


Numa última anotação quantitativa, valerá a pena referir que encontramos na nossa listagem:
14 livros sobre temática maçónica;
10 sobre magia;
6 sobre temas que podemos sumariar integrando-se no ocultismo (inclui-se livros acerca do Graal, martinismo, antroposofia e a citada obra de Yeats);
5 relativos à Rosa Cruz;
5 acerca do espiritismo (incluindo-se volumes sobre a reincarnação);
2 sobre Kabbala;
Apenas 1 livro, directamente, sobre a Teosofia.
Quantos aos 10 livros sobre magia, podemos considerar verificar-se uma incidência elevada de livros com potencial prático:
1-23 Churchill, Lida A., The Magic Seven. 12 th. ed. London: L. N. Fowler and Co., 1911. 88 p.
1-24 Churchill, Lida A., The Magnet. Wimbledon: The Anglo-American Book Co., (1--?). 63p.
1-32 Conybeare, Fred Cornwallis, Myth, magic and horals: a study of christian origins. Ist. ed. London: Watts & Co. 1909. XVIII, 376 p.
1-67 Hartmann, Franz, Magic white and black on the science of finite and infinite life: containing practical hints for students of occultism. Ist. ed. London: Kegan Paul, Trench, Trübner & Co., 1904. 298 p.
1-70 Hubert, M. H., Étude sommaire de la représentation du temps dans la religion et la magie: avec un rapport sommaire sur les conferences de l’exercice 1904-1905 et le programme des conferences por l’exercice 1905-1906. Paris: École Pratique des Hautes Études, 1905. 67p.
1-76 (The) Kabbalah unveiled, transc. Macgregor Mathers, Knorr von Rosenroth, 4th. ed., London: Kegan, Paul Trench, Trobner and Co., 1926, XIII, 360 p.;
1-84 Le Breton, John, The white-magic book. London. C. Arthur Pearson, 1930. XXX, 100 p.
1-151 Master of Therion, Magic in theory and practice: being part III of book 4, Paris, Lecram Press, (19-?), XXIX, 122 p.;
1-139 Sepharial, The Kabala of numbers: a handbook of interpretation. London: William Rider and Son, 1911. 168 p. The New Thought Library. Magic, alchemy and occult science.
2-1 777: vel prolegomena symbolica ad systemam sceptico misticae viae explicandae – fundamentum hieroglyphicum sauctissimorum scientiae summae”, London (etc.), The Walter Scott Publishing Co., 1910, 54 p..


Quanto às obras de Aleister Crowley, afinal o primeiro objecto das nossas investigações, apurámos que Fernando Pessoa possuiu as seguintes:
“The confessions of Aleister Crowley”, Volume I e Volume II, Mandrake Press, London, 1929;
“Liber 777”, The Walter Scott Publishing Co., Ltd., London, 1909;
The Master Therion, “Magick in theory and practice (being part III of book 4)”, Lecram Press, 26 Rue d’H… (?), Paris, sem data.


Cumpre encerrar este (longo) parêntesis, dedicado a caracterizar a biblioteca esotérica de Fernando Pessoa, como acervo de fontes especialmente relevante para a nossa investigação, regressando à digressão cronológica que vínhamos empreendendo.

Depois de algum interregno nesta sequência factual cronológica, cerca de três anos durante os quais não identificamos referências factuais relevantes para o nosso estudo, verificamos que em 1928, sem data exacta, Pessoa escreve a David Davidson acerca do livro “The Great Pyramid, Its Divine Message” e quatro outros panfletos. O livro não consta da nossa listagem, mas parece certo que está na Biblioteca Fernando Pessoa. Na carta é referido o envio de alguns excertos de textos publicados na imprensa portuguesa, que Pessoa explica terem que ver com a lenda do regresso de D. Sebastião. Trata-se, certamente, de uma minuta parcial de carta, que não terá sido remetida, pois o texto acaba abruptamente.


Igualmente sem data, mas ainda em 1928, Pessoa escreve a Teixeira de Pascoaes terminando com a curiosa frase “Não duvido de que a emoção do poeta possa viver mais do que a arte do artista em outras esferas, noutros mundos, em outros planos, como dizem os ocultistas menores.“. Também neste caso parece que a carta não terá sido remetida. Já em 1929, mais exactamente a 9 de Outubro, Pessoa escreve a Ofélia Queiróz, dizendo a dado passo “Preciso cada vez mais de ir para Cascais – Boca do Inferno mas com dentes, cabeça para baixo, e fim, e pronto, e não há mais Íbis nenhum.”.


Assim se demonstra como a encenação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno, quase exactamente um ano depois, não surgiu do repentinamente, antes correspondendo a pensamentos suicidários que já anteriormente atormentavam a mente do poeta. Sendo matéria amplamente conhecida, abordada em diversa bibliografia facilmente disponível – muito embora de qualidade científica com enormes assimetrias – dispensamo-nos de descrever aqui em pormenor a sequência factual dos contactos estabelecidos entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley.


Sumariemos, portanto.
A história da relação entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley iniciou-se quase um ano antes do célebre episódio da Boca do Inferno, com uma carta de 18 de Novembro de 1929 dirigida por Pessoa à “The Mandrake Press”, cujo objectivo expresso era o de encomendar a autobiografia – dita “autohagiografia” – “The confessions of Aleister Crowley”. Fernando Pessoa mostra-se igualmente interessado por “The Stratagem”, um pequeno volume contendo três histórias escritas por Crowley, esclarecendo que tem na sua biblioteca uma outra obra do Mago, o “Liber 777”, que adianta ter adquirido sem conhecer a identidade do seu autor. Logo a 22 de Novembro de 1929, em resposta à sua carta, Pessoa recebe uma carta da editora informando do envio, em separado, do primeiro volume das “Confessions…” – o poeta receberá ainda, posteriormente, o segundo e último volume publicado, à época, da “autohagiografia” de Crowley – e do volume de “The Stratagem”.


A 4 de Dezembro de 1929, um passo fulcral: Pessoa dirige nova carta à editora, onde entre outros assuntos arrisca lançar a ponte para o contacto com Crowley: “Se tiverem, como provavelmente têm, oportunidade de comunicar com o Sr. Aleister Crowley, talvez possam informá-lo de que o seu horóscopo não está correcto e que, se ele admite que nasceu às 23h.6m.39s de 12 de Outubro de 1875, terá Carneiro 11 no seu meio-céu, com o correspondente ascendente e cúspides. Encontrará então as suas direcções mais exactas do que provavelmente as encontrou até agora. Isto é mera especulação, claro, e peço desculpa de vos maçar com esta intromissão puramente fantasista no que é, afinal de contas, apenas uma carta comercial.”


A “The Mandrake Press” responde a 9 de Dezembro de 1929, comunicando o envio, por correio separado, do segundo volume das “Confessions ...” e informando que a carta anterior de Pessoa foi passada a Crowley, que lhe responderá directamente, o que vem a ocorrer por carta de 11 de Dezembro de 1929 onde Crowley tece alguns comentários às anotações sobre astrologia que o português lhe tinha remetido, embora anotando que fazia “... muito pouca astrologia, excepto simples natividades e trânsitos”.


Não será, porventura, esse o principal motivo de interesse desta carta. Ao contrário de Miguel Roza, não nos impressiona que Crowley use na carta, respectivamente no início e no final da mesma, a expressões “Do what thou wilt shall be the whole of the law” e “Love is the law, love under will”, que correspondem à síntese final do “Liber Al vel Legis”, o “Livro da Lei”, ditado (inspirado ?) a Crowley pela entidade Aiwass no Cairo, em Março de 1904, que para o esoterista e seus seguidores corresponde ao advento do Éon de Horus, a nova Idade de que Crowley pretende ser Santo e Profeta. Provavelmente, estranho seria a ausência na carta de tais expressões.


O que nos parece mais significativo é que Crowley trate, desde logo, Pessoa por “Care Frate” (Caro Irmão) e que assine, sem qualquer hesitação (em grego, pelo seu punho) “O Grande Thérion 666”. Acresce que Pessoa, logo desde a carta de 6 de Janeiro de 1930, se dirige a Crowley como “Carissime Frater” (Caríssimo Irmão).


Estranha e a merecer investigação aprofundada é referência de Crowley a “the Message”. Pelo seu punho, como post-scriptum, o Mago escreve a 22 de Dezembro de 1929 que considerou a recepção das poesias de Pessoa como uma verdadeira Mensagem, “...que gostaria de explicar pessoalmente” e, na carta 14 de Janeiro de 1930 sublinha que “O nosso encontro aí elucidaria alguns pontos confusos no meu pensamento acerca da Mensagem”. De facto, os dois homens manifestam reciprocamente, logo numa fase inicial do seu contacto epistolar, a vontade de se encontrarem, parecendo certo que houve intenção de fazer coincidir tal encontro com um equinócio, bem como que a localização do mesmo em Portugal acaba por decorrer da posição de Pessoa, que não teria possibilidade de custear a sua própria deslocação ao estrangeiro.


Quanto ao episódio da Boca do Inferno, é datado a 23 de Setembro de 1930, coincidindo exactamente com o equinócio de Outono, que supostamente ali ocorre o suicídio de Crowley. Os contactos entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley tornaram-se públicos quando a 27 de Setembro de 1930 - um Sábado - o Diário de Notícias publicou a primeira notícia onde se coloca a hipótese de Aleister Crowley se ter suicidado na Boca do Inferno, em Cascais


Sabemos hoje que tudo não passou de uma encenação, orquestrada pelo próprio Crowley, desenhada, com um forte sentido novelesco, por Pessoa e protagonizada por um amigo do poeta, o jornalista Augusto Ferreira Gomes, que pretensamente se teria deslocado a Cascais, a 26 de Setembro de 1930, com o intuito de entrevistar Aleister Crowley. O jornalista ter-se-ia dirigido à Boca do Inferno, sem explicação racional, onde, no grande corte na rocha que se encontra ao lado esquerdo daquele acidente natural, teria encontrando uma cigarreira e, sob aquela, uma carta.

A cigarreira, que se sabe hoje ter pertencido a Fernando Pessoa, ostenta em ambas as faces símbolos egípcios. A carta, redigida em papel timbrado do “Hotel de l’Éurope”, de Lisboa, está colocada num envelope, este com o timbre do Hotel Astoria, de Coimbra, encontrando-se endereçado a Miss Hanni L. Jaeger, à data a “mulher escarlate” de Crowley, com nota para lhe ser entregue, rezando o seguinte:
“ Ano 14, Sol em Balança, L.G.P. Não posso viver sem ti. A outra Boca do Infierno apanhar-me-á – não será tão quente como a tua. Hisos!
TU
LI
YU

A interpretação da carta de suicídio e a identificação da data sua ocorrência não exige, sequer, esforço de investigação, pois foi o próprio Fernando Pessoa quem se encarregou de nos esclarecer tais mistérios, tanto em notas pessoais, como no artigo publicado por Augusto Ferreira Gomes no “Notícias Ilustrado” de 5 de Outubro de 1930:
Ano 14 corresponde a 1930, na cronologia especial adoptada por Crowley;
L.G.P. seria o nome místico de Hanni Larissa Jaeger;
Hisos será uma palavra misteriosa de código, apenas conhecida por Crowley e Hanni Jaeger; Tu Li Yu, segundo o próprio Crowley teria explicado a Pessoa, foi um sábio Chinês, que viveu três mil anos antes de Cristo, de quem o Mago inglês seria a actual reincarnação; Sol em Balança, que Pessoa sublinha ser o ponto importante da carta, refere-se às 18 horas e 36 minutos do dia 23 de Setembro – o Equinócio de Outono.


Miguel Roza publicou entretanto interessantíssimos documentos do espólio do poeta, que registam a preparação da elaboração do bilhete de suicídio, contendo as notas para a “explicação” do seu conteúdo.


Claro está que o texto da carta, em si próprio considerado, indicia o suicídio de Crowley na Boca do Inferno, com toda a aparência de tal drástico acto ter sido motivado por razões amorosas: a recente e inopinada partida de Portugal de Miss Jaeger. Sabemos actualmente, através da já citada obra de Miguel Roza, que o objectivo final de Fernando Pessoa era o de editar uma “novela policiária” denominada “A Boca do Inferno”, cuja autoria seria atribuída a um detective de nacionalidade inglesa.


A correspondência entre Pessoa e o Mago inglês, iniciada nos termos acima referidos, mantêm-se durante 1930, antes e depois da vinda de Crowley a Portugal, a qual culmina com a encenação da Boca do Inferno, verificando-se posteriormente uma diluição de contactos, pois se bem que sejam conhecidas cartas datadas de 1931 e 1932, a verdade é que parece haver mais insistência de Crowley que disponibilidade de Pessoa, o qual, aliás, responde pela última vez ao Mago em Outubro de 1931. Anote-se, em todo o caso, que Pessoa manteve em paralelo, durante o período referido, correspondência com colaboradores de Crowley, nas organizações esotéricas por este lideradas, como é o caso de Francis Israel Regardie (secretário pessoal de Crowley) e Karl Germer (Mestre da Ordo Templi Orientis (O.T.O.).

Este facto é bem demonstrativo da profundidade que alcançaram os contactos do poeta com o universo crowleyano, pese embora a curta duração dos mesmos.
Num total, encontram-se identificadas e publicadas:
- 11 cartas dirigidas por Pessoa a Crowley;
- 15 cartas dirigidas por Crowley a Pessoa;
- 25 cartas de Pessoa para a “The Mandrake Press”, Francis Israel Regardie e Karl Germer, sendo que patentemente parte dessas correspondência destinava-se ao próprio Aleister Crowley, contactado por interposta pessoa essencialmente enquanto se mantém publicamente o embuste do seu suicídio;
- 4 cartas da “The Mandrake Press” para Fernando Pessoa;
- 3 cartas de Hanni Larissa Jaeger para Fernando Pessoa;
- 8 cartas de Francis Israel Regardie para Fernando Pessoa;
- 3 cartas de Karl Germer para Fernando Pessoa.

Sendo evidente a motivação esotérica destes contactos, não deixa de ser curioso que Pessoa e Crowley patenteiem igualmente o seu interesse em obter resultados económicos através de publicações a realizar, directa ou indirectamente, em parceria, o que nos conduz a admitir que uma das razões para a diminuição de interesse nestes contactos por parte de Fernando Pessoa seja o facto de, por um lado, se ter tornado evidente que não lograria, por esta via, publicar as suas obras e, por outro lado, por ter constatado que Crowley insistentemente lhe solicitava a angariação de verbas para determinados projectos e, diríamos nós, para a actividade das suas organizações. As dificuldades económicas e os estratagemas para as ultrapassar são, a partir de dada altura, uma constante da vida de Aleister Crowley.


Entretanto, fora da esfera de Crowley, a 30 de Abril de 1930 Pessoa escreve56 ao Conde de Keyserling uma longa carta sobre a Alma (mais exactamente sobre as três Almas) de Portugal. Trata-se de um texto fortemente sebástico, que assina como “O.S., per”. Em nota de Manuela Parreira da Silva, O.S. é interpretada como a ordem referida noutros escritos do poeta como “Ordo Solis”, “Ordo Serpentis”, “Ordo Sebástica” ou “Ordo Sanctissimorum”.


Temos documentada a existência actual de organizações esotéricas, de cariz thelémico, que usam designações desse tipo, como por exemplo “Ordo Serpentis Helicula” – a Ordem da Serpente Espiralada -, de San Diego (Califórnia, EUA).
Será esta conexão admissível ? Nos fragmentos para uma obra que se denominaria “O Caminho da Serpente”58, Pessoa escreve o seguinte:
“ As Sete Ordens Iniciáticas
(Do Sol, do Signo, do Templo, da Serpente, do Sepulcro,
Sebástica e do Santíssimo)
Três ramos ascendentes, com ordens de subida em cada um. Ao todo são sete ordens, sendo três angulares, seis externas, uma interna. Considerar isto.
Na ordem externa inferior, Ordo Solis, a congregação dos infiéis, a quem só o Sol, realidade externa, é visível, actual ou simbolicamente. Na ordem externa inferior direita, Ordo Signi, a congregação dos fiéis externos, que aceitam não propugnar senão certos princípios abstractos e cristãos, cuja semelhança com outros não vêem. Na ordem interna-externa inferior, Ordo (?) a congregação dos ingressos, sub modo, na O. de C.. Na ordem média esquerda, Ordo Serpentis, a congregação dos iniciados da O. Solis. Na ordem média direita, Ordo Sepulchri, a congregação dos in____ Na ordem média central (a culta e sem exterior); Ordo Sebastica, a congregação Ordo Sanctissimorum.”


Mais tarde, a 16 de Outubro de 1930, Pessoa escreve uma carta a João Gaspar Simões, a exemplo de tantas outras referindo-se a matéria literária e editorial. Nesta, porém, referindo-se ao poema “O Último Sortilégio”, que envia juntamente com a carta e explica ter escrito no dia anterior, para publicação na “Presença”, escreve: “Chamo a sua atenção para um pormenor que é preciso vigiar nas provas – o qual pormenor é dois pormenores. Trata-se de não esquecer as aspas que marcam o poema como “dramático”, isto é, falado por terceira pessoa, e de verificar que, como essa pessoa é mulher (e, digamos, bruxa), os adjectivos não saiam no masculino onde a pessoa falante se refere a si mesma. Uma advertência: este poema é uma interpretação dramática da “magia de transgressão”. Se, por alguma circunstância, achar melhor não o publicar, não hesite em não o publicar.”


O ÚLTIMO SORTILÉGIO
Já repeti o antigo encantamento, E a grande Deusa aos olhos se negou. Já repeti, nas pausas do amplo vento, As orações cuja alma é um ser fecundo. Nada me o abismo deu ou o céu mostrou. Só o vento volta onde estou toda e só, E tudo dorme no confuso mundo.
Outrora meu condão fadava as sarças E a minha evocação do solo erguia Presenças concentradas das que esparsas Dormem nas formas naturais das coisas. Outrora a minha voz acontecia. Fadas e elfos, se eu chamasse, via, E as folhas da floresta eram lustrosas.
Minha varinha, com que da vontade Falava às existências essenciais, Já não conhece a minha realidade. Já, se o círculo traço, não há nada. Murmura o vento alheio extintos ais, E ao luar que sobe além dos matagais Não sou mais do que os bosques ou a estrada.
Já me falece o dom com que me amavam. Já me não torno a forma e o fim da vida A quantos que, buscando-os, me buscavam. Já, praia, o mar dos braços não me inunda. Nem já me vejo ao sol saudado erguida, Ou, em êxtase mágico perdida, Ao luar, à boca da caverna funda.
Já as sacras potências infernais, Que, dormentes sem deuses nem destino, À substância das coisas são iguais, Não ouvem minha voz ou os nomes seus, A música partiu-se do meu hino. Já meu furor astral não é divino Nem meu corpo pensado é já um deus.
E as longínquas deidades do atro poço, Que tantas vezes, pálida, evoquei Com a raiva de amar em alvoroço, Inevocadas hoje ante mim estão. Como, sem que as amasse, eu as chamei, Agora, que não amo, as tenho, e sei Que meu vendido ser consumirão.
Tu , porém, Sol, cujo ouro me foi presa, Tu, Lua, cuja prata converti Se já não podeis dar-me esta beleza Que tantas vezes tive por querer, Ao menos meu ser findo dividi - Meu ser essencial se perca em si, Só meu corpo sem mim fique alma e ser!
Converta-me a minha última magia Numa estátua de mim em corpo vivo! Morra quem sou, mas quem me fiz e havia, Anónima presença que se beija, Carne do meu abstracto amor cativo, Seja a morte de mim em que revivo; E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!

A 22 e 26 de Outubro de 1930 Pessoa volta a escrever cartas a João Gaspar Simões nas quais se refere a “O Último Sortilégio”, a segunda das quais contendo pormenores bastante relevantes sobre a génese do poema e sua comparação com um outro poema, que Pessoa diz mais antigo, incompleto e “que vai muito mais além deste na mesma geração - “Lúcifer” – e os cinco poemas denominados, em conjunto, “Além-Deus”.

Lúcifer
Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento de existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (…)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia …
Como, banido, o arqueiro Filoctetes…
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (…)
A pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim, Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que deus, sendo-o não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.

Além-Deus
I / ABISMO
OLHO O TEJO, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
E súbito encontro Deus.

II / PASSOU
Passou, fora de Quando,
De Porquê, e de Passando...,
Turbilhão de Ignorado,
Sem ter turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...
O Universo é o seu rasto...
Deus é a sua sombra...

III/ A VOZ DE DEUS
Brilha uma voz na noute...
De dentro de Fora ouvi-a...
Ó Universo, eu sou-te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idéia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que para Deus me afundo.

IV / A QUEDA
Da minha idéia do mundo
Caí... Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...

V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO
(Entre a árvore e o vê-la)
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida —
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando — o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?

É, pelo menos, interessante esta sequência, tendo em conta a proximidade temporal com o episódio da vinda a Portugal de Crowley. A 6 de Dezembro de 1930, Pessoa escreve uma outra vez a João Gaspar Simões, com quem à época mantinha contacto muito frequente, voltando a referir-se a “O Último Sortilégio” e, neste caso, remetendo “por simples curiosidade” o “Hino a Pã”, de Crowley, que sublinha não ser para publicar, pois “… seria preciso a autorização de Mestre Therion; e o Mestre Therion desapareceu, não se sabendo se se suicidou…”.


Quanto ao “Hino a Pã”, que na dita carta Pessoa qualifica como “um “poema mágico” a valer” integra a obra de Crowley, presente na biblioteca do poeta, 1-151 Master of Therion, Magic in theory and practice: being part III of book 4, Paris, Lecram Press, (19-?), XXIX, 122 p., que é, efectivamente, um manual de magia, contendo pormenorizadamente elementos sobre a sua teoria e prática.


A 4 de Janeiro de 1931 Pessoa escreve, uma vez mais, a João Gaspar Simões, dando explicações adicionais acerca de “Hino a Pã” e do seu autor, correspondência essa que, sobre o mesmo tema, prossegue a 7 de Fevereiro de 1931, bem como, mais tarde, em 5 de Outubro de 1931, 1 de Novembro de 1931, 20 de Novembro de 1931 e 11 de Dezembro de 1931. Na carta de 4 de Janeiro Pessoa explica que “O Hino a Pã é uma espécie de prefácio do trabalho intitulado Magick (Magia), que foi publicado em Paris, em quatro tomos. Crowley mandou vir de Inglaterra um tratado desses para mim; recebi-o, por sinal, já depois de o Crowley ter desaparecido de Lisboa em circunstâncias misteriosas.”


Já na carta de 5 de Outubro, com delicioso sentido de humor, Pessoa, perguntando quando será o poema publicado na “Presença”, escreve “O Crowley, que, depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha, escreveu há dias e perguntou-me pela tradução – ou, antes, pela publicação da tradução.” e, mais adiante, “Veja lá, agora: não me deixe ficar mal com o Mago !” Fernando Pessoa não colocou no seu volume do “Magick” qualquer anotação ou sublinhado, o que nos leva a colocar a hipótese, desde logo por comparação com os outros livros da sua biblioteca que analisámos, de que o poeta nem sequer o tenha lido. A explicação para tal facto pode decorrer exactamente de integrar o referido poema.


O “Hymn to Pan”, foi traduzido para português por Pessoa e veio a ser publicado na revista “Presença” nº 33, Julho-Outubro de 1931, podendo assim admitir-se que o poeta apenas tenha utilizado este volume para esse propósito específico.

HINO A PÃ
Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã!
Vem turbulento da noite a flux
De Pã ! Iô Pã !
Iô Pã ! Iô Pã ! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artemis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nós que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente — do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera !
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte lião —
Vem, está vazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
E a palavra do Louco e do Secreto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Io Pã ! Iô Pã ! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã ! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã !
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã! Iô Pã!

Novo interregno, na nossa sequência factual. A 20 de Outubro de 1933 Pessoa escreve à editora londrina Ridder & Co., solicitando informação acerca da publicação de uma obra de Arthur Edward Waite, The Secret Tradicion in Freemasonry, de cuja republicação qual refere ter visto indicação em nota constante da obra 0-22 Waite, Arthur Edward, Emblematic free masonry and the evolution of its deeper issues, London: William Rider and Son, 1925, 301 p.. Pede ainda informação acerca da The Occult Review, manifestando interesse num artigo sobre a existência de uma sociedade secreta no seio da Igreja Católica.


Refira-se que Arthur Edward Waite (1857 – 1942) - autor de quem Pessoa possuía igualmente os livros 0-21 Waite, Arthur Edward, The brotherhood of the Rosycross: being records of the house of the holy spirit in its inward and outward history, London: William Rider and Son, 1924, XXIII, 649 p. e 1-158 Waite, Arthur Edward, The holy grail: its legends and symbolism, London: Rider and Co. (etc.), 1933, 624 p.; - foi membro da Ordem Hermética da Golden Dawn, da Societas Rosicrucian in Anglia e, mais tarde, após as cisões que desmantelaram a Golden Dawn, da “Fellowship of the Rosy Cross. Já em 28 de Janeiro de 1934, Fernando Pessoa escreve uma carta ao jornal “A Voz”, acerca de um artigo sobre ordem de dissolução das obediências maçónicas na Prússia. Assina como “Um irregular do transepto”.


A 17 de Outubro de 1934 escreve uma carta a A. Allen, em inglês. Sendo o assunto da carta matéria comercial76, Pessoa escreve, com humor, que “Não sendo Mágico, não as poderia ter carregado com qualquer poder mágico;” referindo-se às palavras “concrete news” constante de uma sua missiva anterior. A 13 de Janeiro de 1935, em extensa carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, na qual se refere profusamente à génese e desenvolvimento dos heterónimos, responde por fim a perguntas do destinatário da carta sobre o seu interesse acerca do ocultismo, com pormenores do maior interesse. Trata-se da famosa carta acerca dos heterónimos de Pessoa, amplamente referida e comentada pelos investigadores pessoanos.


Escreve Fernando Pessoa:
“Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes nesses mundos, em existências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos co-existam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do ocultismo, ou seja a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria Anglo-Saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se ele é Criador ou simplesmente Governador, do mundo. Dadas essas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psyche, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente – o que é facto – que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência, desde cerca de 1888. se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho.”

É a seguinte a epígrafe a “Eros e Psique”:
“… E assim vedes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito,
e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor,
são, ainda que opostas, a mesma verdade.
do RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO
NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL”


Segue-se, em termos temporais, o célebre artigo publicado no “Diário de Lisboa” a 4 de Fevereiro de 1935, visando o projecto legislativo cujo objecto era a proibição da actividade das associações secretas, usou de refinada ironia para demonstrar que aquela iniciativa legislativa da ditadura se destinava exclusivamente a atingir a Ordem Maçónica. Tal conclusão fundamentou-a Pessoa no facto de há data e em Portugal, que fosse do seu conhecimento, para além da maçonaria apenas funcionarem como organizações de cariz iniciático, “... essa curiosa organização que, em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus...”, “... uma ou outra possível Loja martinista ou semelhante...”, sendo ainda certo que a Carbonária se encontrava extinta e que há muito estava “... em dormência a Ordem Templária de Portugal...”.


O dito projecto legislativo acabou por ver a luz, como a Lei das Sociedades Secretas, de 21 de Maio de 1935. A 10 de Outubro de 1935, escreve a Tomás Ribeiro Colaço, perguntando a dado passo porque se zangou tanto com o seu artigo em defesa da Maçonaria. Adoece e morre, mais tarde, a 30 de Novembro de 1935, aqui terminando a sua biografia.

Notas de Pessoa a um livro mágico:
Não havendo forma segura de o integrar na sequência cronológica, à falta de fontes que nos concedam elementos de referência, para além da data de publicação, há um livro que se nos afigura essencial, para a sequência do nosso raciocínio: 1-76 (The) Kabbalah unveiled, transc. Macgregor Mathers, Knorr von Rosenroth, 4th. ed., London: Kegan, Paul Trench, Trobner and Co., 1926, XIII, 360 p.; A análise da notas e sublinhados de Fernando Pessoa ao “(The) Kabbalah unveiled” são inúmeras, demonstrando à saciedade o interesse que o poeta dedicou à leitura deste livro.
Claro está que a discussão pode (e deve) começar por se definir se este livro versa a temática da magia ou se é, estritamente, um livro sobre Cabala. É uma obra muito complexa acerca da Kabbalah, da qual consta um prefácio escrito pela mulher de Samuel Liddel Mathers, autor da tradução do livro nesta versão inglesa. Esclareça-se, muito brevemente, que Mathers nasceu em 8 de Janeiro de1854, na cidade de Londres. Tendo dedicado a maior parte da sua vida ao ocultismo, teve como mentores Woodman, Westcott e Anna Kingsford, com os quais viria a participar na “Hermetic Order of The Golden Dawn”. Pese embora o facto de ter acolhido Aleister Crowley na “Golden Dawn”, veio a gerar-se entre ambos uma terrível querela – que o Crowley afirma textualmente ter implicado autênticos combates mágicos -, a qual se pode afirmar ter acabado por conduzir a extinção da Ordem, ao menos na sua feição original. Mathers morreu em 1918.


Chirstian Knorr von Rosenroth, autor da obra traduzida por Mathers, viveu no século XVII (1636 / 1689), tendo nascido na Silésia (Alemanha). Os seus estudos sobre ocultismo terão sido bastante influenciado por Jacob Boehme (1575 / 1624), filosofo místico alemão. A “Kabbalah denudata” foi a primeira tradução do “Zohar” do hebreu para o latim. Tratando-se, como se disse, de um complexo livro sobre Cabala, arriscamos relacioná-lo com o interesse do poeta pela magia tendo em conta, antes de mais, a pessoa e biografia do tradutor e autor do prefácio da edição inglesa. Conhecidas e amplamente documentadas as relações de Pessoa com Crowley, resulta evidente o contacto do poeta com a vertente do esoterismo europeu da sua época herdeiro directo da Golden Dawn original, pelo que se não foi por tais interesses que decidiu adquirir e estudar atentamente a “Kabbalah denudata”, podemos colocar como séria hipótese alternativa que estas leituras sobre a cabala lhe tenham aberto as portas do complexo universo da Alta Magia.


Muito embora uma coisa não se reduza à outra, antes pelo contrário, a Cabala e a magia cabalística são elementos importantíssimos da Alta Magia, podendo citar-se a este propósito os estudos de Eliphas Levi, lado a lado com Mathers, Crowley e tantos outros. Como argumento contrário pode aduzir-se a hipótese do interesse de Fernando Pessoa pela Cabala se ter resumido à componente relacionada com as artes divinatórias, que já referimos terem constituído uma das motivações mais perenes e relevantes do poeta, no que ao esoterismo diz respeito. O que reiteramos é que, não a olhando de forma isolada, mas sim em termos sistemáticos, no que ao conjunto dos interesses de Pessoa diz respeito, a cabala surge estratégica e adequadamente como uma ponte entre as artes divinatórias e a magia, pelo que pensamos que o argumento pode ser acolhido na nossa investigação, sem carácter conflituante relativamente às hipóteses de trabalho para as quais temos vindo a apontar.


Está em causa um volume em formato aproximadamente B5, de capa dura, preto e com dizeres na lombada a dourado. O sentido essencial das notas e sublinhados do poeta, neste livro, é a marcação sequencial, de forma muito precisa e intensa, das explicações dadas no livro, passo a passo, acerca dos conceitos cabalísticos. Por outras palavras, trata-se de um sequência de leitura profunda, não de um assinalar de determinadas passagens muito específicas, pelo seu particular objecto ou, por exemplo, por referência a uma pessoa, local ou acontecimento. É um anotar de quem está a estudar, a procurar aprender, não de quem deixa notas esparsas tendo em vista facilitar a identificação de uma certa passagem ou referência, numa consulta futura do mesmo livro.

Mais do que outras referências, porventura incompreensíveis sem o recurso directo ao livro, propriamente dito, valerá talvez a pena transcrever aqui algumas passagens escritas pelo punho de Pessoa, no próprio volume. Na página 19, encontramos um traço a lápis, ao alto e no lado direito do texto, englobando:
“… connecting link, is required, and hence we arrive at the form which is called potential existence, will still scarcely admit of clear definition.”
À esquerda do texto apontado foi escrito à mão, a lápis, de forma bem legível:
“static”
Por seu turno, na página 20 e à esquerda do texto, foi escrito à mão, a lápis, de forma bem legível:
“Sem
Sem Fim
Sem Fim Luz”
Anote-se que o texto à margem do qual se escreveu segue, cabalisticamente, até “... ain soph aur = the Limitless Light ...”
Na página 24, à esquerda e a lápis, encontra-se escrito:
“sabedoria
(ou saber)”
Nota: O texto em causa versa sobre a Sephira Chokmah, “wisdom”.
E mais, adiante, na mesma página, surge anotado à esquerdo do texto, a lápis:
“entendimento
(comprehensão)”
Nota: O texto em causa versa sobre a terceira Sephira, Binah, “... the understanding...”.
Na página 29, encontramos, antes de mais, uma anotação à mão, a lápis, à direita:
“elder gods ?”
O texto que se encontra ao lado da anotação é o seguinte:
“These primordial worlds are called the “kings of ancient time”, and the “kings of Edom who reigned before the monarchs of Israel”.”
Na página 30 encontra-se uma anotação escrita a lápis, à margem, junto ao traço a lápis que enquadra o texto acima transcrito. Muito embora a leitura seja muito difícil arriscamos a seguinte transcrição:
“sense asiah
= hr.”
Repare-se que imediatamente antes da passagem que, acima, indicámos enquadra-se pelo traço vertical a lápis, encontra-se no texto a referência a “olahm hr-qliphoth”, que é indicado como “o mundo da matéria”.


Mas é nas três páginas da contracapa interior, que se encontra o resultado mais fascinante e prometedor do nosso estudo, no que à “Kabbalah Denudata” diz respeito, sob a forma de extensas notas escritas a lápis por Fernando Pessoa, as quais são de leitura bastante difícil. Procuraremos respeitar escrupulosamente a apresentação e sequência exacta das anotações manuscritas a lápis.
1ª Página:
… Possuir o Verbo é filho, não de Deus
Pater mas do Espírito Santo, não
do corpo mas da alma de Deus
1st the sephirot corresp to Ain
2nd “ “ “ “ Ain Soph
3rd “ “ “ “ Ain Soph Aur
Malkuth corresp to Kether
the four world corresp to these 4
divisions.
Nota: “corresp” é o que parece uma contracção ou abreviatura de “corresponds”, palavra que aparece correctamente escrita, integralmente, logo no início da página seguinte.
2ª Página:
Malkuth, bride, corresponds to Binah,
Microprosopus, father, “ “ Chokmah
God creates first himself as creator.
Enquanto Deus manifestação de seffarad
(Aimh) D Creador do mundo é um; en-
quanto creador do mundo é
(Elohim) dois (Chokmah e Binah); en-
quanto Deus total, Nephesch ou
sanha ou trêz reis do seffarad
Deus é três; enquanto Elle e
o mundo, por crear e por ñ
Malkuth a soltar, é quatro (IHVH);
=
natureza enquanto
em
até ao dez com e por os 10
Sephirot.
todas as religiões certas, porque
se conformam com um ou
outro aspecto. até quem
diz que não há Deus tem ra-
zão pois verdadeiramente Deus é
o seffarad que não está no
mundo para o bem.

3ª Página:
P. 40 – VI.(a) = S(?) of degrees in Order.
preexistence
forexistence
preexistence
antexistence
inexistence
+
negative existence ante-ser ser não
A pre-singular ser não poder ser
pretentious existence poder ser para ser
Seph
existence 10 1 ser
self-existence 9 2 singular ser-se
other-existence 8 3 outro ser
existences 4 serem
self-existences 5 plural serem-se
other-existences 6 ………
inexistences 7 não serem
self-inexistences 8 plurals não serem-se
other-inexistences 9 ……….
negative inexistence
inexistence 10 ? não ser
ante-inexistence Seffarad ? não poder ser não ser
nada corresponde em Malkuth ao Ain (: ante-se)

Relativamente à nota inicial desta terceira página, é evidente que corresponde a uma referência a uma passagem concreta do livro, que Fernando Pessoa identificou com página, parágrafo e alínea. Na tradução em português que possuímos, na qual a página é a 61, o texto em causa é:
Conclusão: As três primeiras Sephiroth formam o modo do pensamento; as três Sephiroth seguintes, o mundo da alma; e as quatro Sephiroth restantes, o mundo do corpo, correspondendo dessa maneira aos mundos intelectual, moral e material.


Fernando Pessoa assinalou esta passagem específica do livro, através de um traço vertical a lápis. O mais curioso é a ligação que Pessoa faz, na anotação escrita que vimos comentando, entre a referência do livro, agrupando os Sephiroth, relativamente aos graus da Ordem.
De facto, os graus iniciáticos da Argenteum Astrum, criada e liderada por Aleister Crowley, estavam organizados de acordo com a árvore da vida e com os 10 Sephiroth, exactamente como ocorria com a Golden Dawn original.

Crowley esclarece expressamente ser a Terceira Ordem a A.A., sendo a Primeira a G.D. (Golden Dawn) e a R.R. et A.C. (Roseae Rubeae et Aureae Crucis). Na fórmula utilizada por outros autores, a ordem encontrava-se subdividida em três ordens, a Golden Dawn, Rosy Cross e Silver Star, sendo esta última, na sua forma latina, a A.A.. Há portanto, em qualquer caso, uma divisão da sequência de iniciação em três níveis, agrupando-se em cada um parte dos graus de iniciação. Isto grosso modo, pois há graus de passagem, cuja função é fazer a ponte de uma ordem para a seguinte, cada ordem tem três graus. Esta matriz hierárquica que faz corresponder graus iniciáticos aos Sephiroth da Árvore da Vida, segundo alguns, terá como origem a Rosa Cruz de Ouro, alemã do século XVIII, tendo sido retomada pela Societas Rosicruciana in Anglia e, depois, pela Golden Dawn, através de W. Wynn Wescott e (exactamente) por S. L. MacGregor Mathers. A sequência é:
Ipissimus
Grau 10 = 1
Kether
Magister Templi Magus
Grau 8 = 3 Grau 9 = 2
Binah Chokmah
Adeptus Major Adeptus Exemptus
Grau 6 = 5 Grau 7 = 4
Geburah Chesed
Adeptus Minor
Grau 5 = 6
Tiphereth
Praticus Philosopus
Grau 3 = 8 Grau 4 = 7
Hod Netzach
Theoricus
Grau 2 = 9
Yesod
Zelator
Grau 1 = 10
Malkuth
Abaixo, temos ainda o grau 0 = 0 de Neófito.


Parece, portanto, certo que temos aqui uma prova concreta do conhecimento de Fernando Pessoa acerca das ordens esotéricas e iniciáticas organizadas com base nos 10 Sephiroth. Repare-se que escreveu na sua nota “Order” e não “orders”. Estava a pensar numa organização concreta e não, de uma forma genérica, neste tipo de organizações iniciáticas.


Os escritos pessoanos sobre ordens iniciáticas e iniciação.
Tendo em conta as interessantíssimas notas escritas de Fernando Pessoa acerca da estruturação e hierarquia das Ordens Iniciáticas, constantes do seu espólio, reveladas, entre outros, por Yvette K. Centeno, resultam dados exactíssimos acerca da estruturação das Ordens iniciáticas relacionadas (para simplificar) com a Golden Dawn. Do espólio (54-91), consta a seguinte transcrição, oriunda da obra que temos vindo a citar:
“Há, em ordens menores, ordem externa e ordem interna; formam a primeira os neophytos e zeladores, a segunda os practicos e philosophos; a primeira abrange app. E comp. Os simples iniciados (Neophytos) e os Mestres (Zeladores), e a segunda os graduados dos Altos Graus, e os graduados dos Graus de Passagem – practicos e philosophos respectivamente.
Nas ordens maiores, há a ordem externa e a ordem interna também; a ordem externa consiste numa organização que parte do 1º e vae ao 10º grau, exactamente como está indicado; a ordem interna, visto que se trata de altas ordens (e a ordem interna é que é a verdadeira, sendo externa apparente), começa no Adepto Menor, que é o Neophyto da ordem interna. Segue o Adepto Maior que é o Zelador da Ordem Interna; no Adepto Exempto, que é o Pratico da ordem interna fora e o Philosopho da ordem interna dentro. O Mestre do Templo da Ordem Externa é o Adepto Menor da Ordem Interna; o Mago da Ordem Externa é o Adepto Maior da Ordem Interna; o Ipsissimo da Ordem Externa é o Adepto Exempto, fora, e o Mestre do Templo, dentro, da Ordem Interna.


Nestas disposições interpretativas se contém a explicação de todas as Ordens e de todas as maneiras de Ordens. Ellas se applicam, por egual, às Ordens que dirigem a Maçonaria, às que governam a Egreja, e às que animam os Livros, pois tudo é o mesmo, porque vem do mesmo, sim, do mesmo Ipsissimo (que quer dizer “mesmo”) da Ordem Interna.
……………………………………………………………………………………………......
Dos quatro sentidos do symbolo, a gradação é assim:
prof. sentido literal
N. – sentido literal do symbolo
Z. – sentido allegorico do symbolo Atrio (Pateo)
Pr. – sentido moral do symbolo sent. Alleg.
Ph. – sentido espiritual literal do symbolo
AMin. – sentido espiritual allegorico do symbolo Claustro
AMaj. – sentido espiritual moral do symbolo sent. Moral
AEx. – sentido inteiramente espiritual do symbolo
AEX(dentro) – sentido divino literal do symbolo Templo
M.T. – sentido divino allegorico do symbolo sent.
Mago… - sentido divino moral do symbolo spirit.
Ipissimo – sentido divino espiritual do symbolo
Assim, numa cadeia racional, tudo é um.”


Conclusões
Mais do que conclusões, nesta fase da nossa investigação haverá que falar em interrogações e em hipóteses de trabalho. Em todo o caso, para além do já anteriormente anotado, ao longo do nosso texto, pensamos estar em condições para podermos sublinhar o seguinte:
- É absolutamente certo que o interesse de Fernando Pessoa relativamente ao ocultismo foi muito profundo, abrangendo a totalidade da sua vida adulta.
Parece, por isso, artificiosa a ideia, difundida por exemplo por António Quadros, no sentido de que se poderiam identificar ter fases distintas, evolutivas, na vida do poeta, a primeira de carácter filosófico, a segunda paganista e a terceira gnóstica.
- Sendo evidente o interesse particularmente intenso de Pessoa pela astrologia, que praticou profusamente, a conexão de fundo que encontramos nas suas leituras é principalmente com a Rosa Cruz e com a Cabala.
A alquimia tem também um papel extremamente relevante para Pessoa, arriscamos dizer que com especial ênfase no final da sua vida e por força de algum desencanto relativamente à Magia, curiosamente sendo também nesses seus últimos anos que parece ampliar-se a sua admiração pela maçonaria.
- São repetidas as afirmações de Pessoa no sentido de não pertencer a nenhuma organização esotérica.
Acontece, no entanto, que boa parte dos seus escritos sobre ocultismo revelam conhecimentos profundos acerca da estrutura, modo de funcionamento e filosofia de certas organizações iniciáticas.
Até ao momento, não conseguimos encontrar conexão demonstrativa de que tais conhecimentos tivessem como base as suas leituras. Os textos de Fernando Pessoa sobre ocultismo relacionam-se muito claramente com as organizações esotéricas da filiação Golden Dawn, com evidente proximidade com as ordens thelémicas, o que se afigura natural dada a totalmente documentada relação com Aleister Crowley.
Parece, em todo o caso, de admitir que a iniciação de Pessoa – pois é exactamente dessa hipótese que estamos a falar – tenha ocorrido antes do seu primeiro contacto com Crowley, pois logo nas primeiras cartas tratam-se reciprocamente por frater.
- Escreveu Pessoa, para uma obra que se chamaria “Átrio”, discorrendo acerca das Ordens do Átrio, do Claustro e do Templo, organizadas segundo o esquema do Templo de Salomão:
“As Ordens do Átrio, que servem para ministrar os primeiros conhecimentos do que está oculto … Uma delas é a Maçonaria. Não direi qual é a outra. …
Seguem-se, passado o Transepto – ou regularmente, por iniciação plenária em qualquer das duas ordens citadas; ou irregularmente, por contacto directo com os Altos Iniciadores, e sem necessidade portanto de passar por qualquer dessas ordens – as chamadas Ordens do Claustro, ou Altas Ordens. …”
Sabermos já que em Janeiro de 1934 assinou como “irregular do transepto” “O. S. per”. Cruzando os dados que o próprio Pessoa nos deixou, quer isto dizer que considerava encontrar-se no ponto de passagem entre as Ordens do Átrio e as Ordens do Claustro, como irregular, isto é, por contacto directo com os Altos Iniciadores. O. S. seria, portanto, a Ordo Serpentis, a congregação dos iniciados da O. Solis.
Pessoa diz ter sido iniciado na aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal. Tudo considerado, arrisco dizer que o poeta integrou, iniciaticamente a Argenteum Astrum pois esta permite iniciações individuais, sem relação comunitária, ao contrário da outra grande organização thelémica, a Ordo Templi Orientis. Bem sei que há muito a quem repugne este nível de relação entre Pessoa e as organizações, à data, lideradas por Aleister Crowley, mas é para esta conclusão que todos os indícios apontam.
Terminemos, uma vez mais, com palavras de Fernando Pessoa:
“Tudo é um. O Satânico é tão-somente a materialização do divino. A magia é uma só; a magia negra não é mais que a magia branca feita materialmente. (...) Se conhecermos os processos da magia negra e os interpretarmos como símbolo, chegaremos ao conhecimento dos processos da magia branca.”
“Há muitas Cabalas e dificilmente acreditaremos ser possível obter a união com Deus, seja o que for que por tal se entenda, a menos que estejamos familiarizados com o alfabeto hebreu.
(…)
O facto, no entanto, é que, qualquer que seja o caminho tomado, não deve ser antes de que os graus preparatórios, os graus de neófito tenham sido atravessados. O Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior.
(…)
A vantagem do caminho gnóstico é haver menos tentação de atingir o intelecto superior sem passar pelo inferior – já que ambos são intelecto e há uma diferença de quantidade entre um e outro – do que nos caminhos místico e mágico, onde há uma diferença de qualidade, não de quantidade, entre emoções e intelecto, entre a vontade e o intelecto.”


Esta é, como se disse, uma investigação ainda em curso, acerca de um objecto particularmente difícil, dado o seu elevado grau de imprecisão, pese embora a diversidade de fontes disponíveis. Também nesse sentido, parece-nos notável a síntese de Richard Zenith, que qualifica o poeta, no que importa à nossa temática de hoje, como “o esotérico ambíguo”.
Lisboa, 12 de Dezembro de 2009
Pedro Basto de Almeida

Saturday, November 21, 2009

A ALTA MAGIA E FERNANDO PESSOA na Tertúlia de 12 de Dezembro de 2009 no BAR do ALÉM

A Alta Magia em Fernando Pessoa,
na última tertúlia do Bar do Além do ano 2009
Alenquer, EN nº 9, Km 94
com Pedro Basto de Almeida
dia 12 de Dezembro, sábado às 12h
inscrições limitadas e abertas desde já





O que é Alta Magia?
respostas em Eliphas Levi, por exemplo....
Quem é Pedro Basto de Almeida?
Membro e orador da Tertúlia do Bar do Além, é também advogado e foi o fundador do GIFI
«O GIFI, então com a denominação Grupo de Investigação de Fenómenos Insólitos- G.I.F.I., foi criado em 15 de Novembro de 1976 por dois amigos, que contavam apenas 10 anos de idade». 32 [e não 42 como apareceu...] anos depois a GIFI ainda existe e continua a dedicar-se ao estudo de rituais mágicos, sociedades secretas ou fenómenos OVNI. Relativamente a estes rituais mágicos, vamos ao Senhor da Pedra, em Miramar (Gaia); vamos também conversar com um responsável da Sociedade Portuguesa de Ovnilogia.
Pedro Basto de Almeida, fundador
e director da GIFI, Associação Portuguesa para a Investigação, como hoje se chama.

Tuesday, November 03, 2009

Astrologia Karmica no Bar do Alem com Dulce Regina foi no dia 21 de Novembro de 2009






Dulce Regina é Astróloga kármica e terapeuta de vidas passadas; há mais de vinte e cinco anos utiliza o Mapa Astral Kármico como diagnóstico espiritual mostrando a cada alma o histórico de suas encarnações. Realiza atendimentos em várias cidades do Brasil e exterior: Suíça, Holanda, Espanha e Portugal.

Dulce Regina é autora de vários livros publicados em Portugal, Espanha e América Latina. O sucesso de seu trabalho teve grande repercussão na Europa principalmente após o lançamento de sua primeira obra, o livro Alma Gêmea.

Mapa Astral Kármico

Serve como instrumento de conscientização dos karmas adquiridos em outras encarnações, este tipo de interpretação é entendido como um diagnóstico espiritual, necessário para a compreensão e superação dos males físicos e de alma que afligem o ser humano atualmente. A Regressão É um procedimento que utiliza técnicas de relaxamento, em um processo totalmente consciente, permitindo que as pessoas entrem em contato com dois tipos de experiências vividas nesta ou em outras encarnações:

experiências traumáticas que interferem negativamente na vida atual, impedindo o desenvolvimento espiritual, físico, profissional, afetivo e financeiro de um indivíduo. Experiências altamente positivas, de onde se pode retirar conhecimento e força para superar as dificuldades .

OBJETIVO DOS TRABALHOS REALIZADOS POR DULCE REGINA

Dentro de uma visão holística do ser humano, o seu objetivo é auxiliar na prevenção do STRESS, DEPRESSÃO, ALCOOLISMO, DROGAS, SÍNDROME DO PÂNICO dentre outros assuntos que serão abordados dentro de uma visão psicológica, astrológica e espiritualista.

Há a necessidade de conscientização da libertação de um passado repleto de culpas, mágoas, ressentimentos, sentimentos de inferioridade, medos, carências afetivas, sentimentos que perseguem o ser humano desde sempre, impedindo-o de sentir a felicidade plena e limitando-os no despertar de seus dons.

“AMPLIAR A CONSCIÊNCIA É SAIR DA IGNORÂNCIA, DA IMPOTÊNCIA, DA CARÊNCIA, SEJA ELA FÍSICA, FINANCEIRA, EMOCIONAL OU ESPIRITUAL, TORNANDO-SE ABSOLUTAMENTE RESPONSÁVEL PELO PRÓPRIO DESTINO, AMANDO-SE, RESPEITANDO-SE E FAZENDO DA PRÓPRIA EXISTÊNCIA UM ATO DE AMOR E DIGNIDADE.”








Dulce Regina está em






Neste livro, a autora estimula o leitor a refletir sobre a existência de uma Força Maior, capaz de transformar o padrão vibratório do planeta. Para isso, devemos nos preparar para a UNIÃO definitiva com nosso Complemento Divino, acreditando que merecemos o direito à felicidade e a plenitude.




Através do Mapa Astral Kármico é possível saber o que o espírito plantou em outra encarnação e, por consequência, o que colherá nesta.




Monday, November 02, 2009

Noite do Halloween, Noite das Bruxas, Noite do Espanta Espíritos no Bar do Além: letra da lengalenga ou ladainha da invocação



No início da noite de 31 de Outubro, No Bar do Além
véspera do dia de defuntos ou de todos os Santos,
foi recitado o ritual do esconjuro Galego da Queimada,
cerimónia de remota origem celta tradicional oral,
em português e em gallego, conhecida também por Espanta espíritos:
Conjuro Versión Original en Gallego:

I VERSÂO
da Ladainha, arenga ou Lenga Lenga, mantras ou cegarrega

Mouchos, coruxas, sapos e bruxas!
Demos, trasnos e dianhos, espritos das enevoadas veigas.

Corvos, pintigas e meigas, feitizos das mencinheiras.
Pobres canhotas furadas, fogar dos vermes e alimanhas.
Lume das Santas Companhas, mal de ollo, negros meigallos,
cheiro dos mortos, tronos e raios.
Oubeo do can, pregon da morte, foucinho do satiro e pe do coello.
Pecadora lingua da mala muller casada cun home vello.
Averno de Satan e Belcebu, lume dos cadavres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes, peidos dos infernales cus,
muxido da mar embravescida.
Barriga inutil da muller solteira,
falar dos gatos que andan a xaneira,
guedella porra da cabra mal parida.
Con este fol levantarei as chamas deste lume que asemella ao do inferno,
e fuxiran as bruxas acabalo das sas escobas,
indose bañar na praia das areas gordas.
¡Oide, oide!

os ruxidos que dan as que non poden deixar de queimarse no agoardente,
quedando así purificadas.
E cando este brebaxe baixe polas nosas gorxas,
quedaremos libres dos males da nosa ialma e de todo embruxamento.
Forzas do ar, terra, mar e lume, a vos fago esta chamada:
si e verdade que tendes mais poder que a humana xente,
eiqui e agora, facede cos espritos dos amigos que estan fora,
participen con nos desta queimada.

II VERSÃO da Ladainha,
arenga ou Lengalenga, ou cegarrega (aportuguesada)

Sapos e bruxas, mochos e corujas,
demonios, diabretess e dianhos,

espíritos das enevoadas varzeas,
corvos, pegas e magas, feitiços das curandeiras,
lume andante dos pobres canhotos furados,
luzinha dos bichos andantes,
luz de mortos penantes,
mau olhado, negra inveja, ar de mortos,
trovões e raios,
uivar de cão, piar de mocho,
pecadora língua de má mulher casada com homem velho.
Vade retro, Satanás,
prás pedras cagadeiras!
Lume de cadáveres ardentes,
mutilados corpos dos indecentes peidos de infernais cus.
Barriga inútil de mulher solteira,
miar de gatos que andam à janeira,
guedelha porca de cabra mal parida!
Com esta colher levantarei labaredas deste lume, que se parece ao do Inferno.
Fugirão daqui as bruxas, por ciba de silvados e por baixo de carvalhais,
a cavalo nas suas vassouras de giesta,
para se juntarem nos campos de Gualdim.
para se banharem na fonte do areal do Pereira...
Ouvide! Ouvide:

- os rugidos das que estão a arder nesta caldeira de lume.
E quando esta mistela baixar pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males e de todo o embruxamento.
Forças do ar, terra, mar e lume, a vós requeiro esta chamada:
Se é verdade que tendes mais poder que as humanas gentes,
fazei que os spírtos ausentes dos amigos que andam fora participem connosco desta queimada!

Friday, October 30, 2009

Proximas Tertúlias do Bar do Além do ano de 2009/2010


Janeiro, 23, Horizontes astrológicos 2010 (Fernando de Albuquerque)
Fevereiro, 20, O segredo Maçónico
(Rui Bandeira)
Março, 20, A Teosofia (Jose Anacleto)
Abril, 24,
O ciclo de Portugal de 17 anos em 2012 (Manuel Gandra)
Maio, 22, O amor não plátonico em Platão (Jose Manuel Marques)

Junho, 26, Cerimónia Ritual do Solstício (Nandin de Carvalho)
Julho, 10, Coração -dimensão espiritual (Ferrero Marques)

Agosto...................mês de pausa..................................
Setembro, 25, A Atlântida e a Verdade (Re)velada, (José Manuel Freire)
Outubro, 16, Livros de Dan Brown vistos por um cristã, (Isabel Girão)
Novembro, 20, O hermetismo (João Susano)
Dezembro, 4, Artesanato Mágico (orador a indicar)

Saturday, October 03, 2009

Bem sucedidda tertúlia no Bar do Além no Sábado 31 de Outubro sobre Lojas Maçónicas

Decorreu com elevada participação de mais de 50 membros da Tertúlia a sessão de 31 de Outubro no Bar do Além, de que foi orador Inácio Ludgero e Moderador Luis Nandin de Carvalho. Reproduz-se abaixo algumas fotos e o texto da intervenção do orador que suscitou vivo debate, incluindo durante o almoço, prolongando-se o convivio entre os tertulianos ate cerca das 17h nas esplanadas do Alenquer Camping.





As Lojas Maçónicas nos dias de hoje,
suas funções, diversidade e objectivos
(texto de Inácio Ludgero)
-
O que são as Lojas Maçónicas?
- Para que servem?
- Quais as suas funções?
- Onde se encontram?
- Que tipos há
- Que pessoas se encontram nas Lojas Maçónicas
?

Falar de Maçonaria nunca é uma tarefa simples, não só por despertar um certo sentimento de desconfiança ainda latente no povo português (o velho e irracional temor da obscura conspiração revolucionária dos pedreiros-livres), mas também pela inacessibilidade geral das escassas fontes documentais credíveis disponíveis.
Pode dizer-se, de uma forma simplista, que a Maçonaria é uma fraternidade esotérica internacional, postulando uma via de evolução espiritualista não identificada com nenhuma confissão religiosa. Contudo, radica na tradição socioprofissional operativa dos grémios e corporações arquitectónicas da Antiguidade, da Idade Média e do Renascimento, expressa na proposta de cada um dos diversos Ritos que a constituem.
Para falar das Lojas, no tema hoje proposto, não podemos deixar de falar de Maçons e de Maçonaria. Tudo esta interligado.
“Os Maçons podem dividir-se em duas categorias: o Maçon que procura instruir-se e compreender e o Maçon indiferente.
Este último vê na Maçonaria um meio de promover-se e ser assistido. Para ele, a Maçonaria é uma sociedade como qualquer outra, mas mais prática.
O Maçon que procura instruir-se, pelo contrário, dá rapidamente conta que existem ensinamentos, que necessitam uma causa. Reflecte sobre tudo o que prende o seu olhar nas Lojas, nas palavras que ouve, no Ritual que se executa perante ele, e descobre então que deve existir uma ciência da Maçonaria, como existe uma ciência matemática que utiliza a álgebra.”
(Gerard-Vicent ENCAUSSE, químico francês, de nome simbólico PAPUS, no seu livro “Ce que doit savoir un Maitre” e citado, também, pelo Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, em 1979 Luís Dias Amado na sua Mensagem anual à grande Dieta, o Parlamento Maçónico)
Fazendo um breve enquadramento histórico da Maçonaria no nosso país podemos afirmar que as mais antigas referências conhecidas sobre a existência das primeiras Lojas Maçónicas especulativas em território português, surgem-nos nos processos jurídico-inquisitoriais do Tribunal do Santo Oficio de Lisboa.
Quase dois séculos mais tarde, e por influência dos ingleses radicados em Portugal na sequência da assinatura do Tratado de Methuen, em 1703, a primeira Loja Maçónica especulativa portuguesa identificada, surge cerca de 1728, fundada em Lisboa, pelo empresário católico inglês William Dugood, aí estabelecido com a sua família, sendo registada pela Grande Loja de Inglaterra.
Esta Loja – designada pelos Maçons católicos irlandeses como a Loja dos mercadores hereges – era essencialmente composta por empresários ingleses anglicanos e escoceses presbiterianos, sobrevivendo apenas até 1755, aquando da destruição maciça de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro.
Por outro lado, uma outra Loja existia, a Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia, estritamente integrada por clérigos regulares dominicanos, militares e empresários católicos irlandeses (além do engenheiro militar húngaro Carlos Mardel, interveniente directo na planificação urbanística e volumétrica da reconstrução pombalina de Lisboa, posteriormente ao terramoto de 1755). Reuniam-se mensalmente num restaurante junto ao Cais do Sodré, reflectindo sobre temas instrutivos, recreativos e económicos.
O que é a Loja?
As Lojas não são os edifícios onde se reúnem os Maçons, mas constituem a sua própria organização.
A Loja é o local onde os Maçons se reúnem (o mesmo que Templo).
A sua entrada principal localiza-se, simbolicamente no Ocidente, enquanto que o Venerável Mestre (aquele que preside) tem assento no Oriente.
A sessão deve, sempre, ter lugar num local recatado da indiscrição dos não iniciados, devidamente fechado e vigiado.
A forma de trabalhar na Maçonaria é uma forma ritualista. Uma maneira de disciplinarmos um debate onde podemos ter diversas opiniões, sem que no final cheguemos a alguma conclusão. Portanto o Ritual é que une os Maçons.
O Ritual Maçónico é o conjunto de actos que, coerentemente com a linha do pensamento filosófico do Rito a que pertence a Loja, estabelece a maneira adequada de realizar os trabalhos.
Através do Ritual, desde que devidamente interpretado e vivenciado, é que os Maçons se aglutinam nas Lojas.
Um conjunto de, pelo menos, três Lojas constitui uma Obediência. As Lojas são compostas por um mínimo de sete Mestres Maçons ou tratando-se de
Triângulos Maçónicos por, pelo menos, três Mestres Maçons, divididos pelos seguintes cargos:
-Venerável: que é o Presidente.
-Primeiro Vigilante: responsável pelos Companheiros.
-Segundo Vigilante: responsável pelos Aprendizes.
-Orador: representante da Lei Maçónica e que sintetiza as conclusões de cada reunião.
-Secretário: redige as actas e convoca os Irmãos.
-Tesoureiro: responsável pelas finanças da Loja.
-Experto: responsável por preparar os candidatos aquando das provas de iniciação.
-Mestre-de-Cerimónias: responsável pela organização simbólica dentro do Templo.
-Hospitaleiro: responsável por visitar os Irmãos doentes e familiares destes.
-Guarda Interno: é o responsável por verificar a entrada no Templo, podendo impedir a entrada de pessoas ou Irmãos não autorizadas.
Uma Loja Maçónica é um “ser colectivo”. Um corpo de trabalhadores de simbolismo dedicados às mais variadas actividades, desde as litúrgicas às administrativas, como a apresentação e discussão de temas do nosso dia a dia, mas sempre tende por objectivo principal a Busca da verdade.
A Loja representa um Microcosmo dentro do Macrocosmo que é a Obediência em que está inserida.
As actividades da Loja desdobram-se em três planos igualmente importantes: Filosófico, Filantrópico e o Fraternal.
A Loja é o instrumento da Filosofia Maçónica para realizar seu objectivo de “construir uma Humanidade melhor e mais esclarecida”.
Para isso, têm que se recrutar novos elementos do mundo profano que, pela sua sabedoria, julguemos capazes de absorver os conhecimentos simbólicos, interpretá-los e exercitá-los no seu aspecto administrativo, como o ritualista, como filantrópico para os formar Mestres Maçons.
Repito, não é em vão que os três graus Simbólicos são os de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
O aspecto administrativo diz respeito à continuidade da vida do organismo físico.
O segundo aspecto é relativo ao trabalho ritualista em que o resultado final, como nós Maçons dizemos, é o “desbastar da pedra bruta até chegar à pedra cúbica”. O debater questões para o aperfeiçoamento da humanidade.
Finalmente vem o terceiro aspecto, a finalidade verdadeira que deve ter uma Loja, a filantrópica. Nela um Maçon deverá ter uma intervenção activa na construção de um mundo melhor, mais Justo, Fraternal e mais Solidário.
O desenvolvimento equilibrado desses três aspectos tornará possível a realização dos seus objectivos, razão de ser da Loja.
A Loja deve estar organizada de forma a poder funcionar harmoniosamente, como uma verdadeira família e, como tal sujeita a percalços e vicissitudes, divergências e dissensões. Por que não? Afinal, todos ainda estamos no caminho, lapidando as próprias imperfeições com as “ferramentas” que o Simbolismo nos oferece.
Procuramos aprender mas, ao mesmo tempo, a Organização pede-nos compromissos, tarefas, atitudes...
Já tivemos problemas no passado e temos no presente, que graças ao esforço de valorosos Irmãos foram devidamente superados ou não.
Mas, parafraseando um conhecido aforismo, “o preço da nossa estabilidade é a eterna vigilância”.
Não se pode admitir que interesses puramente pessoais se sobreponham ao interesse comum, ultrapassando os objectivos maiores da Loja, mas no fundo a Maçonaria é composta por Homens e reflecte o espelho da nossa sociedade.
As Lojas nos dias de hoje:
- Nos dias de hoje existem, em termos filosóficos, três tipos de Lojas, as teístas, as deístas e as laicas.
Logo aqui se põe duas questões: sendo a Maçonaria anti-dogmática, como podem os Maçons estar a acreditar num Deus revelado? Então a Maçonaria só deverá ter Ateus? Pois o ser Agnóstico também é uma forma dogmática.
Não querendo aqui entrar nesta discussão que divide ao longo do tempo os Maçons só quero dizer que os Maçons devem ser Homens tolerantes e por isso as três correntes de Lojas devem conviver tranquilamente.
- Nas Lojas teístas, acredita-se num Deus revelado, chamam ao Altar do Compromissos Altar de Juramentos, tendo em cima deste uma Bíblia. Evocam nas Sessões o Grande Arquitecto do Universo e dizem nas mesmas, a celebre frase latina “UNIVERSI TERRARUM ORBIS ARCHITECTORIS AD GLORIAM INGENTI” – à Gloria do Grande Arquitecto do Universo. Ainda hoje existem Lojas em Portugal e não só que o evocam.
- Nas Lojas deístas tem uma postura
filosófico-religiosa que admite a existência de um Deus criador, mas questiona a ideia do divino. Os deístas acreditam na possibilidade da existência de dimensões transcendentais. Contudo, não estão presos a nenhum tipo de mitologia mas com o dogma de Deus. Acreditam num Deus, mas não praticam nenhuma religião em particular.
- Nas Lojas Liberais, aparecem em 1872, quando se instaurou nas Lojas o princípio da Liberdade Absoluta de Consciência que não tem nada a ver com as teorias do liberalismo económico, mas foi nessa altura surgiu uma invocação, nas Sessões Maçónicas, o deixar de se invocar nas mesmas Sessões o Grande Arquitecto do Universo, o GADU e o ser “Um Maçon livre numa Loja Livre”.
- As Constituições de Anderson de 1721, feitas por um pastor anglicano, ao que se consta não Maçon, e que hoje estão completamente desactualizadas, são uma espécie de princípios imutáveis da conduta de um Maçon, os chamados Landmarks.
Um dos Landmarks de Anderson, foi a de que só podiam entra homens na Maçonaria. Homens no género masculino.
Este, meus amigos, PARA MIM, não é o caminho, o caminho é só um, o das Lojas mistas (Masculinas e Femininas).
Por isso, PARA MIM, o grande combate das Lojas no século XXI é o de serem mistas
É inconcebível nos dias de hoje, em pleno Século XXI, em que a igualdade de género é uma realidade se possam ainda arranjar argumentos para essa separação e nos estarmos a reger por princípios do Século XXVIII.
- De qualquer modo, um Maçon, deve ter a liberdade de escolher uma Loja Masculina, Feminina, Mista, o Rito que quiser, deísta, teísta, laico, na Obediência que quiser.
Mas a relação entre Irmãos deverá sempre pautar-se pela divisa que “todos somos Iniciados”.
- O “Dura lex sed lex” é uma expressão
latina cujo significado em português é "A lei é dura, porém é a lei". Mas a lei Maçónica é diferente, da do comum dos mortais e rege-se pelas divisas Fraternidade e Tolerância. Tolerância de saber ouvir aqueles que pensam diferente de nós.
Mesmo em organizações Profanas (que não são Maçónicas), os Maçons devem sempre reger-se por este princípio das Leis Maçónicas, mas deveríamos seguir aquele velho provérbio chinês de Confúcio, que nos diz: «Quando os teus inimigos te atacam, senta-te à beira do rio e espera que os cadáveres deles passem por ti».
Portanto a Inter-relação de Irmãos da mesma e de diversas Lojas e Obediências é fundamental
- Na minha experiência em Loja, com o nº 5 do PSD e seu director de informação à altura, outro, um Presbítero da Igreja Lusitana, que ao entrar para a Maçonaria em 1986, era membro do Partido Comunista e Padre da Igreja Lusitana, que escreveu uma carta a Álvaro Cunhal, a que este lhe respondeu, alegando a impossibilidade entre Comunismo e Maçonaria, outro ainda, um socialista convicto, outro de extrema esquerda e outros sem partidos.
Estes Maçons tinham diversas religiões, diversos partidos, mas puderam “habitar” e trabalhar na mesma Loja, discutindo tudo e todos e manter relações Maçónicas e Profanas com Irmãos ditos Regulares e Obediências com que o Grande Oriente Lusitano não tinha relações
- Desmistificamos o mito que os Irmãos ditos irregulares não têm nenhuma relação com os ditos regulares.
Lembremo-nos que um grupo de Maçons no seio do Grande Oriente Lusitano procurou ganhar, sem sucesso, as eleições para o Grão-Mestrado em 1983, saindo inconformados da Obediência para fundar uma outra em Novembro do ano seguinte, a Grande Loja de Portugal, com o objectivo de adquirir o reconhecimento regular de funcionamento maçónico-institucional por parte das Obediências tradicionalistas já que o Grande Oriente Lusitano (que entretanto abandonara, em 1982, a designação de Unido) tinha relacionamentos diplomáticos apenas com as Obediências ditas liberais e mais politizadas, como a Grande Loja Unida de Inglaterra e a Grande Loja Nacional Francesa.
Mesmo acontecendo estes factos fizeram-se “Fraternais”, por Irmãos de diversas Obediências e Potências, mantiveram-se contactos privilegiados…só assim faz sentido.
Na Politica a relações entre Maçons:
- Em Março de 1996, na cerimónia final do encontro entre líderes europeus e asiáticos, decorreu em Banguecoque, na Tailândia, chamou-se a atenção para o curioso aperto de mãos que uniu todos aqueles estadistas, no final dos trabalhos. Quem viu, reparou que todos deram a mão direita, por cima da esquerda, ao parceiro do lado esquerdo, e a mão esquerda, por baixo da direita, ao parceiro do lado direito. Este gesto simbólico dos Maçons, chama-se “Cadeia de União” que é feita no final de cada Sessão. Entre outros estavam: o chanceler alemão HELMUT KHOLN, o primeiro-ministro chinês, LI PENG, o chanceler austríaco, FRANK VRANISKY, o primeiro-ministro português, ANTÓNIO GUTERRES…. Foi certamente um acto “provocado” por Maçons, pois estes sempre estiveram nos actos mais importantes da História Mundial, como na:
- Constituição dos Estados Unidos que é Maçónica;
- A do Brasil também;
- A Constituição Portuguesa é também de inspiração Maçónica;
- Os princípios programáticos da ONU;
- Da constituição da CEE;
- Da Liga Internacional dos Direitos do Homem;
- Da Declaração Universal dos Direitos do Homem;
- Na Universidade Livre de Bruxelas;
- Nos Rotários;
- Formação da UNESCO;
- Formação da UNICEF;
- Da Cruz Vermelha, etc.
Entre Maçons:
Existe o:
- O “G.I.T.E.” – que é um Grupo Internacional de Ajuda Mútua no Turismo, que em 2008 tinha 2.221 membros repartidos por 55 países.
- A “JEUNESSE FRATERNELLE – PONT DE L’AMITIÉ” – Amizade Fraternal de Jovens, numa Colónia de férias em Vichy, para filhos de Maçons.
- O “CLIPSAS” - CENTRO DE LIGAÇÃO E DE INFORMAÇÃO DAS POTÊNCIAS SIGNATÁRIAS DO APELO DE ESTRASBURGO.
O CLIPSAS é numa organização internacional da Maçonaria liberal de todo o mundo. Aderindo à ética proposta pelos fundadores, de se submeterem com toda a fidelidade, de tolerância, de fraternidade e de união.
O Seu objectivo é congregar Maçons, homens e mulheres, que consideram que a LIBERDADE ABSOLUTA DE CONSCIÊNCIA que é a grande vitória da humanidade sobre ela mesma.
Casos pessoais com membros Regulares:
- Inácio Ludgero/Nadin de Carvalho em Maio de 1994 a propósito de Reportagem na Visão sobre a Grande Loja Regular de Portugal;
- Inácio Ludgero/Nuno Nazareth Fernandes/José Anes, em Maio de 1994, sobre Cerimónias de Elevação através do Grande Priorado Independente da Helvética (Rito Escocês Rectificado), nos Claustros do Convento de Cristo em Tomar;
- Inácio Ludgero/Nandin de Carvalho, em Janeiro de 1998, pedido de divulgação de notícias;
- Inácio Ludgero/José Anes, em 29 de Junho de 2001, no 10º aniversário da Loja Regular de Portugal, na Costa da Caparica, onde fui convidado para a cerimónia e banquete comemorativo.
Como um jornalista, Maçon, ateu, posso ter este convívio com Regulares e crentes em Deus?
Claro que sim, porque nos respeitamos que cada Irmão tenha a sua crença, o seu género, a sua raça, a sua orientação política ou sexual, que seja republicano ou monárquico. Todos somos Iniciados, todos somos Maçons, todos somos Irmãos.
- A Maçonaria é uma Ordem, à qual não podem pertencer senão Homens livres e de bons costumes, que se comprometem a pôr em prática um ideal de paz.
- Lobby? Tráfico de Influências? Nada disso e como alguns exemplos temos:
- Sabe-se o que se passa nas reuniões de direcção de qualquer clube de futebol?
- Sabe-se o que se passa nas reuniões das administrações das empresas onde trabalhamos?
- Sabe-se o que se passa nas reuniões de conselho de ministros?
- Sabe-se o que se passou em casa, numa reunião de família de A, B, C ou D?
- Porque razões têm de vir para a opinião pública as reuniões de uma Loja Maçónica, que dentro dele ainda por cima nos tratamos por Irmãos?
- Alguém é nomeado ministro e escolhe para seu braço direito:
A- Aquele que é altamente competente, mas não tem a sua confiança.
B- Aquele que não é tão competente, mas tem a sua confiança total.
- Quando em qualquer posição que tenhamos, devemos escolher sempre gente da nossa confiança.
Vamos falar no verdadeiro Trabalho das Lojas:
No Estrangeiro:
- Da Loja Albert Camus, em Paris do Grande Oriente de França:
- Tem uma Organização chamada “Université Sans Frontière”, que estabeleceu parcerias com diversas Associações e entidades regionais. A saber,
- Acções para as Colectividades Territoriais e Iniciativas Sociais, Desportivas, Culturais e Educativas;
- Agricultura Sem Fronteiras, com intervenções na Europa (França, Roménia, Moldávia e Kosovo); Médio Oriente (Líbano); África (Mali, Guiné-Bissau, Guiné-ConaKry, Burquina Faso, Nigéria, Senegal, Burundi, Togo, Níger, Madagáscar, Argélia, Mauritânia e Republica Democrática do Congo), na Ásia (China Vietname) e na América Central e do Sul (Honduras, Haiti, Nicarágua e Argentina).
- Associação Viver Solidariedade Internacional;
- “Centraider”, Associação de Cooperação e Solidariedade Internacional;
- Associação para a Protecção do Ambiente e o desenvolvimento do Eco Turismo;
- Na Nigéria, a ONG - Bani Ba Haw: Organização para o desenvolvimento integrado (Saúde, educação e ambiente) que no passado Natal enviou num contentor com 4 toneladas de livros, 70 computadores, 50 impressoras uma sala completa de operações e diverso material médico e ainda o envio de dois camiões com livros e mobiliário.
- Na Costa do Marfim, a associação para o desenvolvimento económico da Região da cidade de Mankono, com a renovação das instalações sanitárias e administrativas no Hospital;
- No Mali – Assembleia Regional da cidade de Mopti;
- No Mali – Associação Malinesa para o Desenvolvimento conjunto;
- No Mali – Associação dos Professores Malineses Emigrados de volta ao País.
- Com a colaboração da UNESCO, no Benim na análise da poluição aquática de iodo e na Tunísia na realização de projectos de mosaicos.
- A ORDEM de SHRINE, uma fraternidade Internacional com cerca de 1 milhão membros, com sede nos Estados Unidos, fundada pelo actor Billy Florence e pelo físico Walter Flaming em 1872 que tem como principal finalidade filantrópica a de proporcionar tratamento ortopédico gratuito às crianças em Los Angeles, até aos 18 anos. Actualmente patrocinou 19 hospitais ortopédicos (com 905 camas) e três institutos para queimados (90 camas). Os orçamentos dos hospitais da ORDEM de SHIRENE para o ano de 1998 excederam os 400 milhões de dólares, mais 1,25 milhões de dólares dia.
Até 1998 e nestas 22 unidades já receberam tratamento mais de 165.00 crianças.
Todos os tratamentos nestes hospitais são completamente gratuitos, não aceitando subsídios estatais para custear os tratamentos médicos nos actuais 22 hospitais e institutos (20 nos estados Unidos, um no México e outro no Canadá).
As receitas financeiras são obtidas através de diversas actividades pelos seus membros, voluntariado na organização de eventos, voluntariado nos hospitais ou transporte de doentes.
-Na “Fundação Ara Solis” – do Grande Oriente Ibérico e com sede na Corunha, dedica parte da sua actividade a colóquios e conferências donde obtém alguns fundos através de leilões venda de quadros entre Irmãos. Tem ligação com uma ONG da Nigéria de apoio às grávidas.
Também está a implementar que na recolha de fundos que é feita em todas as Sessões de Loja Maçónica, a partir da circulação do Tronco de Solidariedade, que circula no final de cada Sessão, em que o seu conteúdo reverterá para um fundo comum de Solidariedade. Essa tarefa feito pelo o Hospitaleiro de cada Loja, neste momento o GOI, quer alagar esta iniciativa a mais Orientes e Grandes Lojas.
Em Portugal:
- Chegam aos nossos dias, o Asilo de S. João, mais tarde denominado Internato de S. João, fundado pelo Maçon José Estêvão de Magalhães e outros, em 1862, para acolher crianças órfãs do sexo feminino, o Asilo de S. João, no Porto, fundado em 1891 para acolher rapazes órfãos e a Escola Oficina nº 1, fundada em 1912, que teve por origem a Sociedade Promotora de Escolas, que teve como fim o ensino elementar, a formação de carácter técnico específico, o que permitia que os alunos ao saírem, pudessem exercer uma profissão.
- Prémio anual “Fernando Valle”, ao melhor aluno da Escola onde estudou este destacado médico, dado pelo Soberano Capítulo de Cavaleiros Rosa Cruz, Grande Capítulo Geral do Rito Francês em Portugal.
Na Política:
- A Maçonaria intervém na Guiné-Bissau em 1998 para mediar o conflito, a partir do contacto feito pela Junta Militar Guineense da altura, ao então Grão-Mestre da Maçonaria Regular, Nandin de Carvalho, o próprio, presente poderá falar disso.
- Em 1999 em Timor, depois do referendo de Agosto, a mudança de posição politica do presidente Bill Clinton, iniciado na Maçonaria através da Ordem De Mollay, com Ramos Horta e o Grão-Mestre da Grande Loja Regular dos Estados Unidos.
A posição sobre Timor (em 8 de Agosto de 1999) tomada na revista “O Aprendiz” da Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal no seu número de Outubro de 1999.
- O Serviço Nacional de Saúde, foi discutido nas Lojas do Grande Oriente Lusitano em 1979, por António Arnaut, à época Ministro da Saúde.
- Cito agora para finalizar, Fernando Valle, médico em Coja (Arganil), que morreu com 104 anos e na altura, considerado o mais velho Maçon do mundo, com 81 anos de Maçonaria (iniciado em 1923), pois o seu exemplo cívico e fraterno é testemunhado por muitos Maçons mas também, por muitos milhares de profanos a quem ele assistiu como médico ao longo da sua vida, sem nunca ter cobrado deles um centavo. Aos pobres, muitas vezes, lhes dava dinheiro do seu bolso para mitigarem as suas necessidades. Estão vivos para o testemunharem: Maçons e profanos. Dizia Fernando Valle num poema de 28 de Janeiro de 1930:
“Creio no mundo da Justiça! Creio no triunfo da
Verdade! Creio na Liberdade, que é a garantia do
Espírito e da Inteligência, que é a própria Natureza
Humana.
Penso que a comunhão no sofrimento e na luta deve
aproximar todos os homens; sou democrata.
Sou assim, se isso é lícito dizer-se, um republicano
progressivo.
A sociedade humana avança e desenvolve-se gradualmente,
aproximando as condições dos homens,
distribuindo mais equitativamente a instrução,
problema capital entre nós, e a riqueza.
Os nossos males não provêem do facto de haver
idealismo a mais, vem exactamente do contrário, de
não haver nenhum.
Urge levantar o vigor moral deste povo atormentado
que continua sem pão para a boca, nem alimento para
o espírito, só, e abandonado às suas dores e à sua
ignorância.
Eu creio em absoluto na marcha progressiva da sociedade,
sou contra todas as formas políticas que possam,
ainda que por momentos,
entravar esse progresso.”
- E dizia-nos: “A Maçonaria, é a Luz! A República o Caminho!”

Eu sou livre-pensador, ateu, penso; sou republicano, falo. Para mim ser Maçon é um motivo de orgulho.
Considero que jornalistas Maçons devem sempre respeitar as obrigações deontológicas e éticas do seu próprio código, assim como o compromisso de honra que assumem no dia da sua Iniciação, que o prestam de livre vontade, compromisso que não contém nada que ponha em causa a honestidade de ninguém, nem a deontologia de nenhuma profissão. Saber que à porta do jornal fica o jornal e à porta da Maçonaria fica a Maçonaria.
A Internet, os meus livros, os meus papeis, os meus Irmãos, me ajudaram neste trabalho que aqui hoje vos apresento, e como dizia Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957,
“Não quero ser um génio. Já tenho problemas suficientes em tentar ser um homem”.
Tenho dito, e estou à vossa disposição para todas as questões que me queiram colocar.

Thursday, October 01, 2009

notícias da Tertúlia e almoço debate sobre a Maldição dos Templários


Decorreu com grande sucesso mais uma Tertúlia do Bar do ALém, em que o coronel Joao Fernandes dissertou com grande erudição sobre a Maldição dos Templários sobre cuja execução passam precisamente 700 anos em 13 de Maio de 2010, data recentemente anunciada para a visita od PApa a Fátima.Participaram no almoço debte 54 pessoas que se mantiveram até cerca das 17h em amena troca de impressões sobre este tema histórico de relevância esotérica,. Seguem-se algumas fotos e um texto complementar distribuido pelo orador convidado




Um documento, apreendido pelas tropas de Napoleão depois de terem invadido a cidade de Roma, em 1809 e referido por Gérard de Sede descrevia o testemunho de um templário, de nome Jean de Châlons aludindo a “três carroças de palha puxadas por cinquenta cavalas que haviam saído, na quinta-feira, 12 de Outubro de 1307 (a véspera da prisão dos templários), do Templo de Paris, conduzidas por Hughes de Châlons, Gérard de Villers e cinquenta outros cavaleiros, transportando «totum thesaurum Hugonis Peraldi [Hugo de Pairaud, o grande Visitador de França]“.


O mesmo templário teria afirmado que o conteúdo das três carroças teria sido embarcado no porto templário de La Rochelle e seguido em 18 navios da armada dos templários com destino desconhecido, mas que, certamente seriam paragens mais amistosas para a Ordem do que as de França… Seria o porto de templário do Baleal (Peniche), aproveitando o bom acolhimento que Dom Dinis deu a tantos frades fugidos de França e a recusa sistemática que sempre deu à Santa Sé quando esta tentou estender a Portugal os processos que incendiavam França?


Seria este tesouro composto por mapas antigos, informações geográficas e documentos que puderam depois ser usados na “Escola de Sagres” e no começo do processo dos Descobrimentos portugueses? Seriam estes documentos e ensinamentos perdidos o cerne da mensagem do “Espirito Santo” que Dom Dinis depois se esforçou por disseminar e que iria até onde fossem todas as naus das Descobertas e da Expansão?