Saturday, November 20, 2010

Como correu a Tertúlia com Teresa Mota e o Milagre das Rosas? julgue cada um pelas fotos e texto

 Dra Teresa Gomes Mota:
Milagre? Lenda? expediente?
O Milagre das Rosas, Isabel de Aragão e a Vila Presépio


Teresa Gomes Mota

Muito bom dia, começo por cumprimentar o Prof. Doutor Luís Nandim de Carvalho e a sua família pela oportunidade e privilégio de participar neste encontro da prestigiada Tertúlia do Bar do Além, e também pelas suas gentis palavras de apresentação.

A todos os presentes os meus agradecimentos pela presença e disponibilidade para ouvirem, durante os próximos minutos, uma pessoa que não é especialista de história, nem de esoterismo, nem de espiritualidade, nem de filosofia… Não professo nenhuma religião, nem partido político, nem quero converter ninguém…

O meu interesse pelo Milagre das Rosas começou na escola, na aula de história sobre o rei D. Dinis (1261 - 1325). E, à semelhança de muitos dos portugueses, manteve-se adormecido no meu subconsciente até há poucos anos, altura em que me comecei a interessar pela vida de Isabel de Aragão, o que conduziu a uma grande transformação na minha vida.

É um pouco dos conhecimentos que adquiri nesta fase, e que ficaram registados num livro que publiquei recentemente “Alma de Isabel - de Aragão ao Chiado”, que venho aqui partilhar convosco. E obviamente esperando que o vosso retorno, como especialistas em assuntos do Além, me alargue os horizontes.

É muito interessante estudar os dados históricos que sustentam a ligação que existe entre a Rainha Santa Isabel (1269?-1336) e vila de Alenquer que teve seu foral em 1212.

Vamos então recuar no tempo, para o século XIII, em que a princesa Isabel de Aragão, então com cerca de 12 anos, casava com o rei de Portugal, D. Dinis (19 anos de idade) e recebia deste em doação pronuptia uma série de vilas e castelos, entre os quais, não consta a vila de Alenquer.

Nesta época era comum as rainhas terem os seus bens e as suas rendas, com as quais sustentavam a sua Casa, e viviam uma vida relativamente independente.

Alenquer figura no primeiro testamento de D. Sancho I a favor de sua mulher D. Dulce de Aragão (1160-1198). Por morte prematura de D. Dulce aos 38 anos de idade, D. Sancho I, em novo testamento, deixa Alenquer à sua segunda filha, D. Sancha (1180-1229), que atribui o primeiro foral a esta vila em 1212. Em 1219 D. Sancha acolheu em Alenquer a primeira missão evangelizadora de frades franciscanos com destino a Marrocos (onde viriam a ser assassinados – ficando conhecidos como os “Mártires de Marrocos”) e pouco tempo depois, em 1222, cedeu o Paço Real para o estabelecimento do primeiro convento franciscano em Portugal - o Convento de S. Francisco de Alenquer. É também aqui que D. Sancha, que mais tarde viria a ser beatificada e conhecida como Rainha Santa Sancha, cria um albergue para doentes pobres e peregrinos.

Posteriormente Alenquer foi doada por D. Afonso III (1210-1279) em casamento a sua segunda mulher D. Beatriz de Gusmão e Castela (1242-1303), mãe de D. Dinis.

Em 1279, já como rainha regente, D. Beatriz, como ficou registado em carta, toma em sua guarda e defesa esta albergaria do Espírito Santo de Alenquer. E em 1290 inicia a construção da igreja do convento, obra que só será terminada depois da sua morte, em 1305 pelo seu filho D. Dinis.

Isabel de Aragão por sua vez também constrói em Alenquer a Igreja do Espírito Santo, nas margens do rio Alenquer, que foi recentemente (2007) reabilitada.
O Bar do Além atento
e a tomar notas hsitóricas da importância de São Francisco
e do Culto do Espirito Santo

Em 1321 concede o “Principio e fundamento da Casa do Spritto Santo”, primeiro compromisso desta confraria, uma das primeiras Confrarias do Espírito Santo em Portugal.

Todas estas circunstâncias ao longo de várias décadas desde o início da nacionalidade dão um cunho a Alenquer de uma Vila de Rainhas, tradição que se vai prolongar por outros reinados.

Mas porque estava D. Isabel em Alenquer e aí empreendia obras, uma vila que não lhe pertencia?

D. Isabel de Aragão veio para esta vila num exílio forçado, ordenado pelo seu marido, ficando impedida de viajar e privada de todas as suas rendas. Isto terá acontecido no final de 1320 sob acusação de favorecer o filho de ambos e pretendente ao trono, D. Afonso IV em luta contra o pai, D. Dinis. Não conhecemos as razões que presidiram à escolha de Alenquer para o exílio, para o convento de S. Francisco.

Foi um episódio seguramente humilhante para uma rainha, na altura com cerca de 51 anos de idade, mas que não despertou nela raiva ou revolta, antes tristeza pela interpretação dada por seu marido aos factos ocorridos.

Em Alenquer escreve a rainha uma carta dirigida ao seu querido irmão D. Jaime, Rei de Aragão, justificando e pedindo a sua intercessão para resolver o conflito:

“Que Deus vos recompense pelos bons sentimentos que tendes demonstrado ao rei, a mim e ao infante D. Afonso nosso filho, querendo tomar parte nas nossas dificuldades, compreendendo tão bem e procurando fazer valer os nossos direitos absolutos e a justiça da nossa atitude. Irmão, sabei que, vendo como as coisas se passam e o estado em que estão, e temendo o futuro, várias vezes pedi ao rei e supliquei a alguns do seu Conselho que tudo fizessem para impedir que não venha um dia pior ainda do que aqueles que já foram; e muitas vezes eu própria fiz tudo quanto pude para recuperar para o infante e para os outros os favores do rei, para que toda a gente viva, como deve ser, para serviço do rei. E Deus sabe que foi e será sempre o meu mais caro desejo, se entretanto estiver no meu poder e for essa a vontade de Deus. Mas tão numerosos têm sido sempre os perturbadores, que eu não pude fazer nada. E Deus sabe quanto desgosto tenho no meu coração, primeiramente por causa do rei, para o qual desejo a vida, a saúde e as honras como para mim mesma; e por causa do infante e da minha própria sorte, já que eu levo uma vida bem amarga (…)”

Este exílio terá gerado alguma contestação, nomeadamente pela impossibilidade legal de D. Dinis privar a mulher de rendas de propriedades que lhe tinham sido atribuídas antenupcial e portanto sob sua exclusiva e intocável jurisdição. Também a Alenquer terão chegado vários alcaides e outras personalidades a prestar lealdade à rainha e oferecer os seus préstimos para fazer frente a D. Dinis, o que segundo os seus cronistas Isabel terá firmemente recusado num sinal de submissão ao poder real do marido e talvez para “impedir que não venha um dia pior ainda do que aqueles que já foram”.

Porventura D. Dinis não a quisesse realmente castigar, talvez a sua intenção fosse apenas afastá-la do seu filho e da sua influência.

Na estadia de D. Isabel em Alenquer há então um paradoxo: por um lado exilada e privada das suas rendas, por outro empreendendo obras, nomeadamente da Albergaria e da Igreja do Divino Espírito Santo. Com que meios?

É neste contexto que se pode compreender uma das lendas do Milagre das Rosas: não tendo dinheiro para pagar aos operários D. Isabel dava-lhes rosas, que depois se transformavam em dobras (moedas) de ouro.

Claro que há quem explique este milagre, dizendo que D. Isabel escondia moedas nas rosas para pagar aos obreiros e assim iludir o rei, ou seja, apesar da real proibição, teria de alguma forma acesso aos seus bens ou às rendas das suas terras que lhe mantivessem fidelidade.

E se na realidade D. Isabel durante este período estava impedida de viajar, pode bem ter recebido e dirigido a sua Casa a partir de Alenquer, que por esta via tivesse conhecido uma maior movimentação e se tornasse mais conhecida. Mas é através da “Casa do Spritto Santo” e do culto do Espírito Santo que Alenquer vai ganhar grande projecção nacional.

Trata-se de uma das primeiras Confrarias do Espírito Santo em Portugal, e embora a nível documental as confrarias mais antigas sejam as de Santa Maria de Sintra e a de Benavente (1237), assim como as festividades associadas, é nesta altura com Isabel de Aragão que o Culto do Espírito Santo terá provavelmente tido grande visibilidade e difusão a partir de Alenquer.

Estas confrarias do Espírito Santo, criadas provavelmente por devotos ligados ao franciscanismo espiritual que nessa altura circulavam pela Europa e chegavam a Portugal, integram-se na tipologia de instituições de caridade e de socorro mútuo formadas por leigos e tendo por orago o Divino Espírito Santo.

A Confraria de Alenquer, teve grande notoriedade. No tempo de Damião de Góis, natural de Alenquer e um ilustre confrade, só entre 1520 e 1577 entraram 1052 novos confrades.

Para compreender o Culto do espírito Santo precisamos de recuar à teoria das três idades de Joaquim de Fiori, um abade calabrês cisterciense que viveu no século XII (1135-1202?). Uma teoria complexa mas que resumidamente se explica do seguinte modo: depois de uma primeira idade sobre os auspícios do Pai, de dependência servil, seguiu-se a era do Filho, iniciada com Jesus Cristo, e estaria para vir uma 3ª idade (que chegou a ser prevista para 1260), a idade do Espírito Santo, (com a revelação próxima do Evangelho Eterno e a entronização do Papa Angélico). Este reinado final de Cristo na Terra, com a duração de mil anos (Apocalipse de S. João) uma era de liberdade, da iluminação de cada um, do diálogo íntimo com Deus, onde não mais seria necessária a intermediação dirigida pela Igreja para aceder ao Divino, pois isso passaria a ser feito directamente por cada ser. Uma idade de Paz, amor fraternal e espiritualidade suprema, verdadeira e derradeira Idade de Ouro do ciclo histórico da Humanidade na terra. Uma visão heterodoxa, que muitos anticorpos terá criado e que foi condenada pela Igreja em 1215.

Estas ideias de Joaquim de Fiori foram largamente difundidas pelos franciscanos através da Europa (incluindo a Corte de Aragão). Ora em Alenquer, como vimos, foi edificado o primeiro convento franciscano em Portugal, pelo que é possível que estas ideias tenham entrado aqui muito cedo.

A ordem de S. Francisco era uma ordem de pregadores, missionários e viajantes, que se propunham viver fora do claustro e levar a palavra e o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis. Outra originalidade desta ordem foi a criação de uma ordem laica, a Ordem Terceira.

Os franciscanos representam o estímulo renovador, a tendência à observação da Natureza e as aspirações à liberdade individual. Desde o início do século XIII que se propaga entre os franciscanos a heresia dos irmãos espirituais, com estrita observância do voto de pobreza, adeptos fervorosos do joaquimismo e crentes que estava eminente o advento da Idade do Espírito Santo.

(mesa da sala 1- a mesa da oradora)

E reconhecemos facilmente nos portugueses estas raízes franciscanas no serviço aos seus semelhantes, sobretudo pobres e humildes, no apreço pela liberdade, no fascínio pelos grandes ideais que nos levaram a embarcar em pequenas caravelas e enfrentar os mares. Rumo aos desígnios da expansão planetária, da evangelização dos povos, da preparação do império prometido (V Império) que há-de de ser português, como anunciado pelo Padre António Vieira, Camões ou Fernando Pessoa: império e nova idade não de mera abundância de bens materiais, mas da superabundância dos bens do espírito.

Mas voltando a Alenquer, é a partir daqui que o Culto do Espírito Santo ganha grande fôlego e notoriedade com o impulso real e se difunde para o resto do país, provavelmente através dos franciscanos e da ordem de Cristo, atingindo o seu auge nos séculos XV e XVI. (Jaime Cortesão conta, no final do século XVI, 75 vilas e cidades onde existiam templos da sua invocação, 80 hospitais e albergues com as respectivas capelas, cerca de 1 milhar de igrejas, conventos e ermidas que possuíam confrarias do Espírito Santo nas quais se realizavam procissões, festas e romarias); o culto embarca e celebra-se nas caravelas, chega aos Açores, à Madeira, ao Brasil, e também a África e ao Oriente. Mais tarde, pela acção dos emigrantes açorianos é introduzido nos EUA e Canadá onde ainda hoje é celebrado.

Uma forma de culto laica, oficiada por um mordomo, em algumas confrarias por uma mulher, com coroação de crianças, com foliões, com abundante bodo comunitário (pão, carne e vinho), celebrada entre a Páscoa e o Domingo de Pentecostes. As festas no Pentecostes têm uma origem anterior à era cristã, a festa das colheitas, a celebração da abundância e que como tantas outras celebrações populares foi adaptada ao cristianismo.

Sem querer desviar-me do tema que me trouxe aqui, lembrar-vos apenas que a difusão do Culto teve o seu auge nos séculos XV e XVI, tendo em Alenquer estas festas particular brilho e tal fama que atraía gente de vários pontos do país.

Em virtude de alegados excessos e extravagâncias, começam depois a ser alvo de diversas limitações e proibições de vários aspectos do culto, e também a integração das confrarias ou irmandades nas Misericórdias, são factores apontados para a progressiva extinção do culto na maioria das localidades.

Mas ele resistiu e permanece bem vivo ainda e com a sua componente de rito espiritual de raiz popular sobretudo nos Açores, mas também na Madeira, no Brasil, nos EUA, Canadá...

Em Alenquer onde as festividades eram célebres e atraíam pessoas de vários pontos do país, o culto do Espírito Santo extinguiu-se há cerca de 200 anos; foi novamente celebrado uma única vez no ano de 1945, e depois de forma regular desde 2007, ano da recuperação da Igreja do Espírito Santo.



Depois desta descrição do contexto, ou “cenário” em que surge o “Milagre das Rosas”, passemos aos factos de que dispomos actualmente:

A primeira referência histórica ao milagre das rosas a que temos acesso é um retábulo quatrocentista (conservado no Museu Nacional de Arte da Catalunha?) e uma descrição incluída na Crónica dos Frades Menores (Frei Marcos de Lisboa, 1562) sendo que nesta versão inicial são moedas que se transformam em rosas.

“Levava uma vez a

Rainha Santa

moedas no regaço

para dar aos pobres(…)

Encontrando-a el-

Rei lhe perguntou o

que levava, (…) ela

disse, levo aqui

rosas. E rosas viu el-Rei não sendo

tempo delas”

Em meados do século XVI já a lenda do Milagre das Rosas estava largamente difundida e ilustrada. “Rainha Santa Isabel” (Museu Machado de Castro em Coimbra), Iluminura da “Geneologia dos Reis de Portugal” de Simão Bening sobre desenho de António de Holand. Do século XVII dois trabalhos anónimos, uma pintura a óleo (átrio do Instituto de Odivelas) e um retábulo (mosteiro de Lorvão). Depois disso e até aos dias de hoje sucedem-se inúmeras referências na escrita, música, pintura, escultura, filmes, teatro, etc.

As versões do milagre são várias, rosas transformadas em moedas, ou o milagre inverso de moedas transformadas em rosas, ou, mais comum nos dias de hoje, o pão para os pobres que se transforma em rosas.

Nesta versão mais popular, ocorrida numa altura de más colheitas, em que a fome alastrava pela Europa, D. Isabel recorrendo às reservas de trigo guardadas nos celeiros da sua Casa, mandava fazer pão que distribuía aos pobres. D. Dinis preocupado com o gastar dessas reservas opunha-se a esta prática e num dia do mês de Janeiro, em Coimbra, surpreende a rainha. Quando a rainha mostra o que leva no regaço, os Pães tinham-se transformado em rosas.

atenção pelas palavras da oradora e pelos slides projectados

Antes de passar à próxima fase gostaria de ter acesso às vossas mentes para saber que expectativas trazem em relação a este tema. O que sabem sobre o Milagre das Rosas, ou, ainda mais importante, o que intuem sobre ele. O que gostariam de saber, ou talvez, de ouvir alguém dizer em voz alta sobre algo que pressentem dentro de vós.

E é esta tarefa (impossível?) que me trouxe hoje a Alenquer.

Uma questão que naturalmente se põe é se realmente o milagre existiu, ou algum episódio que esteja na base desta lenda, ou se esta lenda foi criada já depois da morte da rainha. São então várias as hipóteses:

• Não se tratou realmente de um milagre mas de um artifício, um truque para iludir o rei

Já vos falei na versão das moedas dentro das rosas como um expediente para pagar aos operários na construção da Igreja do Espírito Santo em Alenquer.

Mas que explicação poderíamos encontrar para a versão mais popular do milagre, em que o Pão se transforma em rosas?

As rosas são uma flor conhecida desde a antiguidade existindo na época medieval espécies arbustivas ou de trepar, que florescem apenas uma vez por ano. Só a partir do século XVIII começaram a chegar rosas da China com floração contínua. Daí que haver rosas no Inverno era muito pouco plausível na época de Isabel de Aragão. No entanto…

Há notícia de que o cavaleiro Robert de Brie no regresso das cruzadas (entre 1254 e 1276) trouxe para França uma variedade de rosas vinda de Damasco – Pérsia (Damascena bifera, quatro estações) que florescia todo o ano. É possível que tivesse chegado a Portugal e florescesse nos jardins das rainhas…

Então seria uma possibilidade o seguinte: a Rainha levava um avental cheio de pão para distribuir aos pobres, e atrás vinha uma aia com um avental cheio de rosas (Damascenas?) colhidas em Janeiro no jardim. Quando o rei se aproxima trocam-se rapidamente os aventais e… “São rosas, senhor, são rosas”.

• Uma lenda: o milagre não existiu, ou quando muito existiu um episódio base que mais tarde foi transformado pela tradição oral em milagre.

A descrição do milagre das rosas não consta da biografia anónima sobre a rainha, o documento mais antigo que dispomos sobre a sua vida. Esta Relação ou Lenda da Rainha Santa, como é conhecida, foi escrita talvez por um contemporâneo (Frei Salvado Martins, Bispo de Lamego, seu confessor) e faz parte da Monarchia Lusitana (vol VI) publicada no século XVI. Nesta “Lenda” existe uma listagem bastante circunstanciada e detalhada dos milagres da rainha, com testemunhos, pelo que seria de esperar que, a ter existido, o milagre figurasse aqui. Como já vimos não existe nenhuma referência histórica contemporânea da rainha ao milagre das rosas, e também não consta dos autos de beatificação da rainha.

Outro dado interessante: existem outros milagres semelhantes e anteriores no tempo como nos recorda Lima de Freitas:

- Santa Isabel de Hungria e da Turíngia, tia Avó de Isabel de Aragão, e a quem é dedicado o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha mandado construir pela Rainha Santa em Coimbra. Morreu muito jovem, com o hábito da Ordem Terceira de S. Francisco.

- Santa Roseline, ou Rosa de Viterbo (1263-1329), francesa, também franciscana (filha de Arnaldo de Vilanova que frequentava a corte de Aragão e com quem Isabel de Aragão poderá ter estado em contacto). O seu corpo incorrupto foi depositado em urna de vidro.

É pois possível, provável, que tenha sido uma lenda criada e difundida pelos franciscanos.

E que interesse poderia haver na criação de semelhante lenda?

A Rosa tem um valor simbólico muito forte, é símbolo de renascimento, de amor, do coração, é considerada a flor de Portugal, símbolo feminino, de útero, de Graal, o lótus do ocidente, emblema rosicruciano e tantos outros…

Ver rosas em lugar de pão é, como afirma Gilbert Durand, ver com os olhos da alma. A transmutação de alimento do corpo (pão ou dinheiro) em alimento para o espírito (rosas) vem apoiar a teoria da terceira idade, a passagem para uma nova era. E a fixação desta lenda na rainha de Portugal, grande impulsionadora do Culto do Espírito Santo, vai encontrar eco nos que atribuem um papel importante a Portugal nesta Missão.

Apoiando esta tese da missão espiritual de Portugal no Mundo encontramos a nível artístico os painéis de S. Vicente (investidura de Portugal pelo Espírito Santo) e importantes figuras como Padre António Vieira, Camões, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, entre muitos, muitos outros.

E em Portugal tudo isto nasce em Alenquer, que pode assim ser considerado o berço desta terceira idade, de espiritualidade, de paz e de fraternidade universal. Depois de Jerusalém (onde teve início a era de Cristo), Alenquer (a quem se atribuem muitas semelhanças com Jerusalém) poderá ser a Vila presépio da Nova Era.

(E lembro que o presépio foi inventado por S. Francisco em 1223)

• O milagre existiu mesmo

Os milagres estão associados à realização ou acontecimento de algo reconhecidamente muito improvável, e que não tenha uma explicação do seu mecanismo à luz dos conhecimentos da época em que se realizam. Ou seja, algo impossível de suceder, mas que efectivamente (há testemunhos de que) aconteceu e que constitui de certa forma uma prova de que Deus existe. Estes milagres são assim uma via de aprofundamento da Fé para os crentes e instrumento de conversão à Fé para os não crentes.

Desde Jesus Cristo e dos seus milagres praticados em vida, e depois da sua morte, que a realização de milagres (e muito particularmente na cura de doenças – a chamada missão curandeira de Cristo) ficou associada à santidade de quem os pratica. Constitui inclusivamente um dos requisitos para a canonização pela Igreja Católica.

Mas a evolução científica permite-nos hoje o uso de técnicas absolutamente banais, como por exemplo, o telefone, ou um antibiótico, que seriam há dois séculos atrás consideradas milagres. E o mesmo poderemos imaginar que vá acontecer no futuro ao evoluirmos da física Newtoniana muito condicionada pelos conceitos de tempo e espaço. Hoje ao admitirmos os novos conceitos da física quântica, começamos a levantar um véu sobre muitos outros fenómenos até aqui desconhecidos e inclusivamente a possibilidade de os manipularmos.

Então nesta época de divinização da ciência, deixo-vos a pergunta: existem milagres ou apenas uma falta de conhecimento? Em que milagres estamos dispostos a acreditar?

Visitei a Igreja do Espírito Santo de Alenquer em Outubro.

Estava um dia chuvoso, cheguei a meio da tarde e o acaso levou-me directamente à igreja. Estava vazia. Quando abri os olhos depois das minha orações, verifiquei que o sol entrava pela janela do topo, o que, estando virada a Norte e num dia de Outono chuvoso era bastante improvável que acontecesse. A luz reflectia-se na parede lateral e encandeava os meus olhos. Foram momentos mágicos.


 
 (sala 2)
Mas sentia um peso no peito.


Fui depois ao convento de S. Francisco. Fortemente abalado pelo terramoto de 1755, da estrutura original medieval conserva-se a frontaria da Igreja.

Visitei o claustro, muito bonito e cuidado, a sala do capítulo, não pude deixar de reparar nas rosas nos capitéis das colunas. Não havia ninguém para me guiar na visita, escapou-me o relógio de sol oferecido por Damião de Góis, ou a capela de D. Sancha.

No piso superior existe um lar de idosos da Misericórdia, o que está dentro da vocação original do convento com a sua albergaria. Passei por entre duas filas de cadeiras onde estavam sentados, frente a frente, talvez 30 homens idosos. Da cozinha ouvia-se a azáfama e sentia-se o cheiro agradável da refeição em preparação. À medida que ia andando e cumprimentando, dos residentes, de olhar parado, poucas respostas obtive. Bem vestidos e alimentados, confortáveis, tranquilos… Tal como na maioria dos lares de idosos, pressenti uma grande pobreza, a um outro nível, não a falta de alimento para o corpo, mas para a Alma. O peso no meu peito acentuou-se.

Voltei à borda do rio para fotografar a Igreja do Espírito Santo. A água passava barrenta. Uma mensagem de uma pessoa amiga lembrava-me o dia em que estávamos, 10-10-10, dia muito especial de abertura de portal energético, de como era importante libertar tudo o que não presta, deixar ir, criar espaço em nós para que outras coisas possam entrar.

Assim fiz, deixei ir com o rio Alenquer as mágoas, tristezas, decepções, culpas, apegos indefinidos.

O que aconteceu depois é difícil de vos explicar, foi como que uma abertura do meu coração, uma luz irradiando directamente do meu peito. Um estado de maravilhoso bem-estar que me acompanhou alguns dias.

Pouco tempo depois quando preparava esta palestra e procurava na internet imagens do Milagre das Rosas, a primeira que me apareceu foi esta pintura do Mestre Lima de Freitas (acrílico sobre madeira - 1987), de que passei a ter uma diferente e mais profunda compreensão.

(aspecto do almoço debate)
Para terminar diria que, tenha ou não existido, o significado do Milagre das Rosas mexe com os portugueses (para não dizer com o ser humano) de tal forma, que a lenda perdura há muitos séculos e a sua simbologia permanece bem viva na nossa cultura, como se de todos os milagres, este fosse O Milagre em que estamos dispostos a acreditar.

O Milagre das Rosas, que se associa ao culto do Espírito Santo de inspiração franciscana e cuja celebração se iniciou em Alenquer há quase sete séculos, esta Vila Presépio que ostenta 14 rosas no seu brasão, fala-nos de transformação, de renascimento, anuncia o despertar, o elevar da consciência.

Anuncia-nos o novo tempo em que em vez de assistirmos passivamente à realização de milagres (em que já não acreditamos), operamos o milagre em nós.

É um dos mitos fundamentais que nos orienta o caminho, nos indica uma saída iluminando-nos para a nossa verdadeira essência, se tivermos a vontade e a coragem de abrir os olhos da alma, o coração.

Ver Rosas em vez de pão é o Milagre que espera ser realizado em nós.



Monday, November 15, 2010

Luis Miguel Rocha na tertúlia do Bar do Além com Segredos e Misterios do Vaticano dia 4 de Dezembro

Luis Miguel Rocha é um escritor plolémico que consta ter tido em mãos o diario do Papa João Paulo I. É também um investigador, e acedeu a participar como orador na última tertúlia da primeira década do ano 2000 do III milénio sobre o tema Mistrerios e Segredos do Vaticano, onde poderá igualmente disponibilizar e autografar alguns livros da sua autoria e que se acham esgotados. O seu livro em refer~encia vendeu 500.000 exemplares. O contrato com a editora americana envolveu meio milhão de dólares. Entrou recentemente para a lista dos 30 mais vendidos do "The New York Times".

Como habitualmente, a entrada na tertúlia e ao seu almoço debate é reservada prioritáriamente aos membros da Tertúlia e aos seus convidados, que se podem inscrever exclusimente pelo e-mail:

(Luis Miguel Rocha)
http://www.luismiguelrocha.com/
Extracto de entrevista publicada no jornal I por André Rito em 26 de Agosto de 2009


Considera-se um conspirador?

Não. Trata-se sim de uma história de conspiração. A religião não é para aqui chamada. Falo apenas de pessoas que por acaso pertencem a uma instituição que é o Vaticano.

Com base em factos reais?
Nisso procuro ser muito rigoroso. O leitor do thriller é muito exigente e gosta de verificar os factos. Se, por exemplo, estiver nalguma cidade citada no livro, gosta de ir ver, confirmar com os próprios olhos. Aliás, tenho uma equipa permanente em Roma a investigar factos ligados ao Vaticano.

Foi assim que arranjou a tal cópia do diário de João Paulo I que lhe inspirou o livro?
Tenho fontes privilegiadas. Se não existissem eu nunca teria publicado estes livros. Quem me passou o diário já não está entre nós. Hoje tenho jornalistas experientes a trabalhar comigo.

Não deixa de ser irónico, visto ter tido uma educação católica e ter trabalhado na Igreja.
Não sou inimigo da Igreja. Tenho imensos amigos padres e bispos. Se não tivesse, os meus livros não existiam. Apenas não lido muito bem com a hierarquia católica, sobretudo do topo. Por outro lado, se o Vaticano não fosse tão fechado, eu não teria matéria para os meus livros.

-Fotos da Tertulia no Bar do Alem, em Alenquer, dia 4de Dezembro.
http://bardoalem.blogspot.com/2010/12/presidente-da-cm-de-alenquer-preside.html


Mais links de informação:
http://causamonarquica.com/2009/12/18/entrevista-com-o-realista-luis-miguel-rocha/
http://www.infoescola.com/livros/o-ultimo-papa/
http://www.livroseleituras.com/index.php?option=com_content&view=article&id=823:luis-miguel-rocha-q&catid=64:escritores&Itemid=75

Wednesday, November 10, 2010

Convite aos nossos membros e leitores: MYGUIDE 1ª rede social portuguesa Cultura e Turismo


A Tertúlia do Bar do Além já faz parte da comunidade virtual do portal Myguide

e convidamos...

FESTA DE LANÇAMENTO MYGUIDE

A PRIMEIRA REDE SOCIAL PORTUGUESA DE VIAGENS, LAZER E CULTURA

MUII (ANTIGA KAPITAL) » 18 NOV. » 22.00H

Na noite de 18 de Novembro, a comunidade MyGuide.pt lança-se ao mundo com uma Mostra de Talentos nacionais. A festa de lançamento do http://www.myguide.pt/ será o espelho da interacção que se pretende para esta comunidade. Nos três pisos da discoteca MUII (antiga Kapital), entre as 22h e as 01h30, decorrerão live acts de música, performance, dança, artes plásticas, vídeo, DJs, assim como uma mostra de gastronomia.

Venha viver a comunidade MyGuide por uma noite. Solicite o seu convite em http://www.myguide.pt/
Atenção: O acesso à festa é exclusivo a membros registados no MyGuide. Se ainda não é membro faça já o seu registo. E procure  o espaço virtual da Tertúlia do Bar do Além!


Wednesday, November 03, 2010

colaboraçao de Antonio Loureiro, membro da Tertúlia do Bar do ALém, no Brasil, Minas Gerais sobre O Espirito Santo

JOAQUIM DE FIORE E O

IMPÉRIO DO DIVINO



As idéias do V Império permaneceram adormecidas por mil anos até que nascesse Joachino dei Fiore (1132-1202), na Itália, abade cisterciense, filósofo, místico, defensor do milenarismo e da idade do Espírito Santo.

Na sua interpretação do texto sagrado, existiriam três idades na história, sendo o três o número do progresso, no desenvolvimento do mundo. A primeira, a de Deus Pai, a mosaica, do poder absoluto, inspirando o temor sagrado. A segunda, a de Deus Filho, com a revelação do Novo Testamento e a fundação da Igreja de Cristo, indo do nascimento de Jesus à Idade Média. A terceira, a do advento do Império do Divino Espírito Santo, um tempo de amor e igualdade universais, em que as leis evangélicas seriam definitivamente compreendidas e aceitas. Nesta era não mais existirão Igrejas ditando Leis e disciplinando a Fé, pois tudo será da inspiração divina.

Fiore achava que a segunda idade estava no fim, a ser marcado por um cataclisma. A História estaria evoluindo através dessas idades até a apoteose do Juízo Final.Este tempo ainda por vir seria a fase final da História, com o aumento da espiritualidade no mundo. As igrejas seriam substituídas pelo corpo místico, contemplativo e igualitário, em que os pobres reinariam.

Algumas doutrinas de Fiore sobre a Santíssima Trindade foram condenadas, outras tiveram expansão entre os cistercienses florianos e os franciscanos joaquimitas, que nelas incluiram a ressurreição de São Francisco e a morte do anticristo Frederico II da Sicília. Como entre essas idéias estava a substituição dos Novo e Velho Testamento pelos livros de Fiore, constituindo a Eterna Revelação, o papa Alexandre IV, em 1256, condenou todas as suas obras, também refutadas por Tomás de Aquino, na Summa Teológica.

OS APÓSTOLOS RECEBENDO A LUZ DO

ESPÍRITO SANTO

Contudo o joaquimismo continua latente no Cristianismo Católico e Evangélico. Sendo suas idéias as introdutoras da noção de progresso nas concepções religiosas.

Em Portugal tiveram ampla difusão, com a criação do culto do Espírito Santo, apoiado pela rainha Santa Izabel, esposa de Dom Diniz, mais tarde fundindo-se ao sebastianismo e ao V Império do padre Antonio Vieira.

Santa Izabel era filha de Pedro III de Aragão e de Constança, filha de Manfredo da Sicilia, filho de Frederico II, duas vezes excomungado por pretender terras dos Estados Pontifícios. Portanto Santa Izabel era bisneta de Frederico II da Sicília.

Seu marido D. Dinis (1261-1325) foi aclamado rei, em 1279. Foi o rei da época em que os Templários foram perseguidos pelo rei frances Felipe, o Belo, e pelos papas de Avinhão, especialmente Clemente V. Qundo subiu ao trono, Portugal estava em atrito com a Igreja Católica, normalizando-se a situação ao assinar um tratado, com o papa Nicolau III, de Roma, em oposição ao de Avinhão. Salvou os templários portugueses da perseguição originada, na França, e os incluiu na Ordem de Cristo.

Nos Açores, nas comunidades açorianas do Brasil e em algumas outras localidades portuguesas o culto do Império do Divino Espirito Santo, representa um remanescente das doutrinas de Joaquim de Fiore, introduzidas, em Portugal, no tempo de Santa Izabel, talvez trazidas do Aragão. Os centros iniciais deste culto seriam Tomar, a capital Templária de Portugal, e a cidade de Alenquer, que, para os espiritualistas franciscanos, seria a capital desse V Império, o do Espírito Santo..

Deixando de lado a esquematização das festa e das sociedades que as organizavam, a presença das idéias de Fiore neste culto ainda são patentes, nos Açores, e em outros locais, entre as quais citamos:

1. Fé – Deve-se ter no Divino e nos seus sete dons. O Divino Espírito Santo está presente em todo o lado, tudo sabe e tudo vê, não havendo para ele segredos. As ofensas ao divino são punidas severamente (Diz-se: o Divino Espírito Santo é vingativo), não ficando impunes as promessas não cumpridas. Os Sete Dons do Espírito Santo são: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor, as fontes de toda a virtude, devendo guiar os irmãos.

2. Esperança — Os seus devotos esperam a chegada de um tempo novo onde todos os homens serão irmãos e o Espírito Santo será a fonte de todo o saber e de toda a ordem.

3. Igualitarismo — Todos os irmãos são iguais e todos podem ser mordomos, coroados e imperadores, merecendo igual respeito e obediência quando investidos dessas autoridades. É a expressão prática do igualitarismo joaquimita.

4. Solidariedade e a Caridade — Na distribuição das ofertas e das pensões devem ser privilegiados os mais pobres, para que todos possam igualmente festejar o Divino Espírito Santo. Todas as ofensas devem ser perdoadas, para se ser digno de receber o Divino Espírito Santo.

5. Autonomia em face à Igreja — O culto do Divino Espírito Santo não depende da organização formal da igreja, nem necessita da participação formal do clero. Não existem intermediários entre os devotos e o Divino. É clara a influência do pensamento joaquimita, preferindo a igreja mística à igreja formal.

A festa so Espírito Santo corresponde à de Pentecostes, oriunda do Judaísmo e adotada pelo Cristianismo. Logo depois da Ascensão de Jesus, encontravam-se os apóstolos reunidos com a Mãe de Deus, sendo o dia da festa de Pentecostes. Os apóstolos tinham medo de sair para pregar. Repentinamente escutou-se um forte vento e línguas de fogo pousaram sobre cada um deles. Cheios do Espírito Santo, passaram a falar em línguas desconhecidas. Nesses dias estavam muitos estrangeiros em Jerusalém, que vinham de todas as partes do mundo para celebrar a festa judaica. Cada um ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua e compreendiam perfeitamente o que eles falavam. Todos eles, a partir desse dia, não tiveram mais medo e saíram a pregar pelo Mundo os ensinamentos de Jesus. O Espírito Santo lhes concedera forças para a grande missão de levar a Palavra a todas as nações e batizar todos os homens, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A coincidência da festa do Espírito Santo chegar a Portugal através de Tomar deve-se ao fato daquela cidade abrigar a maior fortaleza e a sede da Ordem Templária, naquele país. Através dela foi efetuada a conquista aos mouros das terras do Ribatejo e do Alentejo.


Friday, October 29, 2010

Dia 20/11, tertúlia sobre o Milagre das Rosas em Alenquer com Teresa Gomes Mota

(Quadro de Mestre Lima de Freitas sobre o Milagre das rosas)
Tema da tertúlia
O Milagre das Rosas, Isabel de Aragão e a Vila Presépio
Inscrições abertas pelo mail bar.do.alem@gmail.com

Uma viagem que começa na mística vila de Alenquer com Isabel de Aragão e o culto do Espírito Santo no século XIV, passa pelos factos e lendas em torno do Milagre das Rosas e nos leva aos milagres do século XXI.

Ver mais em: http://www.myguide.pt/profiles/blogs/o-milagre-das-rosas-em 

Nota biográfica: Teresa Gomes Mota é médica cardiologista, autora do livro publicado em 2010 "Alma de Isabel - de Aragão ao Chiado" . Este livro estará disponível a venda para ser autografado pela autora.
Saiba mais em

Saturday, October 23, 2010

ISABEL GIRÂO na TERTÚLIA do BAR do ALÉM: Bem sucedida intervenção e almoço-debate

a oradora e o moderador
Desenvolvimneto do tema "O cristão e o esoterismo"


O Cristão:

Embora actualmente muitos cristãos já tenham uma visão mais esclarecida sobre a mensagem de Cristo Jesus e o que Ele representou e representa para a Humanidade, (qual o seu significado), muitos ainda mantêm uma mente fechada, bloqueada, consequência de anos de informações erradas, deturpadas, começando pelo catecismo, das meias verdades, que foram sendo difundidas ao longo dos anos, que os impediram de penetrar nas Verdades Mistéricas. Estas verdades escamoteadas provocaram uma profunda alteração nos fundamentos e conceitos que foram dados aos cristãos actuais.

Podemos perceber nos textos dos Evangelhos, cujos sentidos alegórico, simbólico e até mitológico, com as traduções que foram sendo feitas ao longo dos séculos, foram adulterados e deturpados, passando a ser, por esta razão, uma pseudo narrativa histórica da vida de Jesus, o homem; esqueceram Cristo, o Grande Espírito, que iniciou uma nova era, na qual as nações estabelecidas sob o antigo regime de Jeová foram destroçadas, a fim de que a sublime estrutura da Fraternidade Universal pudesse ser edificada sobre as suas ruínas. Deste modo, a religião tornou-se confusa e por vezes incongruente. A maioria dos textos, destinados às coisas elevadas foram distorcidos e esquecidos, deixando de fazer parte da mensagem verdadeira do Cristianismo puro. O que fazia originalmente parte da fé cristã, foi negligenciado e quase esquecido.

Por outro lado, para os cientistas e intelectuais a partir do sec. XIX, o materialismo apresentava-se para a humanidade com um futuro tranquilo e promissor, um progresso sem sobressaltos. A mente humana tornava-se poderosa e “perfeita” e o conhecimento material conduzia a uma confiança absoluta centrada numa educação apenas científica, não falando no prazer que era o bem supremo!

A religiosidade com fundo místico, gnóstico ou esotérico foi esquecida. A simbologia, as tradições, os rituais e o sagrado, foram esquecidos na noite dos tempos.

Vamos tentar entender este fenómeno.

Vou começar, tentando explicar as bases da doutrina cristã esotérica: esta diferencia-se especialmente na crença no renascimento e no evolucionismo, por estes constituírem os seus pontos chaves.

O esoterismo é o sentido oculto de uma obra, é o segredo do segredo; é o segredo do que permanece oculto, um segredo que permanece envolvido no segredo. O esotérico é, por fim, o conteúdo escondido de uma doutrina ou de um ensinamento filosófico, cujos conhecimentos não podem ou não devem ser vulgarizados, mas comunicados somente a alguns discípulos. O esoterismo, é a doutrina segundo a qual os conhecimentos não podem ou não deve ser vulgarizados, mas comunicados somente a alguns discípulos.

(aspecto da sala do Bar do Além)

Assim, como as demais vertentes cristãs, considera-se a Bíblia e, especialmente os Evangelhos, como fontes de autoridade dos mistérios de Deus. No entanto, a Bíblia não deverá ser a única fonte considerada como contendo a “Palavra de Deus”, e muito menos quando interpretada literalmente, ou considerá-la mesmo à prova de erros. Existem outras escrituras que não foram incluídas na Bíblia e são amplamente consideradas no pensamento esotérico, entre as quais os evangelhos gnósticos. Estes evangelhos – muitas vezes alegóricos ou simbólicos – tinham como objectivo conduzir o aspirante a um nível mais alto de conhecimento (gnose), ou verdade, no entanto, foram excluídos dos cânones da Igreja católica. Segundo Max Heindel, os textos da Bíblia foram escritos por escolas de mistérios e para candidatos à iniciação, e não para o povo em geral. O que foi escrito é um conjunto de alegorias para representar mistérios ocultos e que dizem respeito unicamente à natureza do homem.

Cristo é considerado, para os esotéricos, como o líder da humanidade e governante do Sistema Solar, sendo omnipresente assim como Deus, desvelando a cada ser humano a centelha divina que existe em cada um (o chamado “Cristo Interno” de que nos fala S. Paulo). Os cristãos esoteristas, advogam que não há inferno ou paraíso, ou, pelo menos que não são eternos. Cada pessoa paga pelos seus actos na exacta proporção. A todos é concedida a oportunidade do renascimento para o aperfeiçoamento do carácter; e assim a salvação será dada a toda a humanidade – alguns em mais tempo, outros em menos tempo. Também não reconhecem “sacerdotes” na hierarquia de então, embora existissem outras designações como “instrutores”, mas estes não ministravam sacramentos. Reconheciam como único sacramento a chamada iniciação, que não ocorre só dentro das escolas, de mestre para discípulo, mas, segundo afirmam os cristãos esoteristas, é um processo de ordem espiritual, no qual o individuo ao ser “iniciado”, por meio de exercícios de ordem espiritual, ministrados nas escolas mistéricas, consegue, com o seu esforço e dedicação, despertar a glândula pineal do estado latente em que se encontra, permitindo-lhe deste modo, um contacto directo com os mundos supra físicos, podendo assim vê-los e senti-los.

Os membros das escolas esotéricas cristãs entendem que todas as religiões são provenientes de Deus; estas religiões foram apresentadas à humanidade conforme as necessidades espirituais e em conformidade com o nível de evolução de cada povo, embora sustentem que o Cristianismo é a religião preparada para os mais avançados da humanidade, na escala de evolução espiritual. Max Heindel afirma que todas as religiões foram dadas à humanidade pelos Anjos do Destino, que conhecem as necessidades espirituais de cada classe, nação e raça e têm a sabedoria de dar a cada uma a forma de adoração adequada à sua necessidade particular. As Escolas de Mistérios de cada religião, fornecem aos membros mais avançados da raça ou da nação que a adopte, um ensinamento mais elevado, o qual, se for vivido, coloca-os numa esfera superior de espiritualidade em relação aos seus irmãos. E vai mais longe quando afirma: “Consideramos a religião cristã como a mais elevada dada ao homem até ao momento presente, e repudiá-la, seja ela exotérica ou esotérica, por qualquer sistema antigo, é o mesmo que preferir livros científicos desactualizados, aos mais novos que encerram descobertas recentes”.

No entanto, para se abarcar o sentido profundo de algumas obras “novas” é indispensável o conhecimento das “velhas”, por estas darem substrato às “novas”.

Do ponto de vista do oculto, a tradição Cristã esotérica tem uma origem remota numa excelsa e devota Ordem que existiu na Palestina, designada por Essénios. Jesus, de acordo com a tradição esotérica, foi um elevado Iniciado educado pelos Essénios, no entanto a Bíblia não faz qualquer menção a esta elevada seita nem associa Jesus aos Essénios. Esta foi uma das três maiores seitas judaicas da época, junto com os Fariseus e Saduceus. Esta Ordem teve um papel importante não só como guardiã de Mistérios antiquíssimos mas também como instrutora iniciática dos primeiros cristãos. Fílon de Alexandria assevera que no Egipto, os essénios eram conhecidos como terapeutas. Mesmo que Jesus não tenha pertencido a esta Ordem, jamais poderia deixar de a conhecer. Interrogo-me se Jesus foi um Essénio como tudo leva a crer, pergunto porque razão este grupo tão influente, não é mencionado na Bíblia? Qual a razão?

Rudolf Steiner tal como Max Heindel consideram que a Ordem dos Essénios foi essencial para a preparação mística e iniciática de Jesus, transmitindo-lhe segredos e conhecimentos por ela zelosamente preservados.

Corinne Heline, discípula de Max Heindel, recorda-nos que as verdades espirituais mais profundas nunca são passadas a escrito, mas sim transmitidas oralmente, de mestre a discípulo, e sempre de acordo com o grau de entendimento que o discípulo está apto a apreender. Qualquer doutrina ou movimento filosófico esotérico transmitia-se, por tradição, oralmente a adeptos qualificados. Como sabemos, as tradições esotéricas exprimem-se, como em todos os textos sagrados, numa linguagem simbólica e fechada que necessita de uma exegese explicativa.

Para além dos incidentes que se deram ao longo dos anos, o grande problema actual aponta-nos para um ensinamento ortodoxo moderno, baseado em textos que foram e se mantêm mal traduzidos, adulterados e manipulados, mas que em todo o caso não conseguiram ter a força suficiente, para modificar o curso da história da humanidade que a mensagem de um doce Nazareno teve a coragem de lançar ao mundo.

Todas as religiões necessitam dirigir-se a diversas classes de homens e a todos os graus de intelecto. Sabemos que existe uma vasta multidão de pessoas simples que seriam incapazes de entender a metafísica ou argumentos filosóficos profundos. Claro que estas pessoas devem receber um ensinamento ético, claro e preciso; ensinamentos que serão a base da sua vida. Em todas as religiões existe este ensinamento simples que é necessário e está de acordo com o estágio em que cada um se encontra.

Desde a antiguidade, cada culto religioso ou filosófico divulgou sempre um ensinamento esotérico e outro exotérico. Na antiga Grécia, nas solenidades Eleusinias, os mistérios da sua religião compunham-se de “Mistérios Maiores” (secretos) e “Mistérios Menores” (públicos). No Budismo do Norte, também existem os “Veículos Maiores” e os “Menores”, conhecidos por Mahayana (esotérico) e Hinayana (exotérico), formando duas escolas distintas - não menciono os outros dois veículos que fazem parte dos seus ensinamentos, por achar desnecessário para o fim que estamos a tratar.

Sobre este assunto diz-nos Annie Besant o seguinte: “Resta-nos provar se o Cristianismo está excluído deste círculo das religiões: se ele é o único privado da gnose, se não oferece ao mundo senão uma fé elementar e não uma ciência profunda. Se assim fosse, o facto seria triste e lamentável, porque indicaria que o Cristianismo não foi feito senão para uma classe e não para todas as categorias humanas”.

Há pessoas que precisam da Filosofia e da Metafísica, que é proporcionada por qualquer religião ou escola filosófica, porque cada ser humano precisa de saber de onde veio e para onde vai, como este Universo começou e qual o seu objectivo.

A partir do século II a Igreja Cristã rejeitou a Gnose, por que os grandes doutores gnósticos da época ensinavam a gnose sob a forma de mitos que continham uma faceta mais esotérica, a cujo entendimento, só um aprendiz sincero podia aspirar. Encontramos uma Gnose semelhante, transmitida em linguagem mais velada nos textos de São João e São Paulo e em diversos escritos de padres da Igreja, em particular em Clemente de Alexandria e Orígenes.

Ora,“Gnosis” não é conhecimento sobre alguma coisa, mas “comunhão, conhecimento de”. Este é o grande objectivo, “conhecer Deus”, a Realidade em nós, não é a crença, a fé ou o simples conhecimento que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da Mente individual com a Mente Universal, a capacidade do homem “transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina”. O Gnosticismo significa “a crença na Salvação pelo Conhecimento”. Significa a habilidade para receber e compreender a “revelação”. O verdadeiro gnóstico é aquele que conhece a revelação interior e oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. É alguém a quem as manifestações do mundo interior, são mostradas e tornam-se inteligíveis.

Ingressar no caminho da gnosis é como um despertar do sono e da ignorância de Deus, da embriaguês do mundo para a temperança virtuosa. “Pois o mal “ilusão” do não conhecimento, está inundando toda a terra e trazendo total ruína à alma aprisionada dentro do corpo, impedindo-a de caminhar para os portos da salvação”.

Continuando na Gnose velada a que me referi nos textos de S. João e de S. Paulo, ainda hoje a Igreja de Roma não os desvela completamente, ou não lhes dá a importância que eles contêm. Por norma, fazem uma interpretação destes textos de uma forma literal, esquecendo a interpretação mística e cósmica. (Ev. João e o Apocalipse, textos altamente esotéricos).

Os ensinamentos ocultos Cristãos referem que a maior fonte viva da tradição Cristã esotérica, no decorrer do desenvolvimento da civilização ocidental, teve início no sec. XIV com a constituição de uma irmandade secreta de homens santos, designada por Ordem Rosacruz. Esta ordem, abriu a Iniciação aos Mistérios naquele tempo e nos séculos que se seguiram, aos indivíduos com maior preparação e mérito, qualidades alcançadas por esforço dos próprios. Por essa época, começa também a idade da Alquimia, expressando o conhecimento oculto através de escritos herméticos, para evitar a perseguição e o mau uso dos ensinamentos sagrados por parte do homem.

Em 1614 deu-se a primeira manifestação pública da chamada Ordem Rosacruz, num manifesto intitulado Fama Fraternitatis que passou a ser um veículo extraordinário para desenvolver o esoterismo. Este movimento esotérico, a Profª Frances Yates refere-o como “Iluminismo Rosa-Cruz”. Diz esta autora, que o Iluminismo Rosacruz permite compreender de uma forma abrangente, três importantes capítulos da história; as crenças religiosas, a filosofia moderna e os progressos da ciência.

Este movimento aponta para que o ensino esotérico possa ser restabelecido, a fim de atrair estudantes pacientes e sérios, de forma a recuperar a verdadeira essência do conhecimento cristão.

A Igreja Católica de momento, tendo perdido o ensinamento místico e esotérico, vê escapar um grande número dos seus membros mais exigentes ou talvez apenas mais preocupados em encontrar a verdadeira Mensagem de Cristo Jesus.

Recordando as aulas de Esoterismo Bíblico dadas pelo meu estimado prof. António de Macedo, vou realçar um dos temas que nos foi transmitido relacionado com o esoterismo, e penso que nunca é demais repetir o que já aqui foi dito.

Na Antiguidade, a transmissão oral tinha um duplo significado: Primeiro, porque era uma sociedade com uma grande percentagem de analfabetos ( no Império Romano só 10% a 15% dos adultos é que sabiam ler e escrever), o conhecimento era dado oralmente e individualmente, mesmo nos meios em que o analfabetismo fosse escasso; segundo, porque desde eras remotas a transmissão oral era associada ao esoterismo e às tradições iniciáticas em que era necessário preservar o “segredo”. Nestas escolas esotéricas, era rigorosamente proibido passar a escrito um certo número de “verdades”. Só na segunda metade do século primeiro, é que as Escolas de Mistérios Cristãos sentiram a necessidade de fixar por escrito um certo conjunto de alegorizações ritualistas, tomando como base “os actos e os ditos” de Jesus – a chamada “literatura evangélica” que surgiu por essa altura. Daí o facto de Max Heindel e Rudolf Steiner referirem que os quatro evangelhos canónicos, são rituais de iniciação de quatro diferentes Escolas de Mistérios.

(todos muito interessados)

Até bastante tarde respeitou-se o conhecimento de que o Ensinamento de Jesus era destinado à transmissão oral, o que é característico de uma Escola Iniciática.

Diz o Padre Carreira das Neves numa entrevista ao Expresso que “os profetas falaram, mas não escreveram. O mesmo se passou com os Evangelhos, que antes de serem fixados em livro, foram apenas palavras de Jesus, que também não escreveu nem mandou escrever”.(Expresso 15/10/2005).

Nos ensinamentos de Jesus, tal como noutras escolas iniciáticas, existiam duas vertentes sobre a mesma verdade, ou melhor dizendo, uma verdade continha dois níveis; um profundo, apenas reservado ao conhecimento e à transmissão dos “mestres da verdade” aos discípulos próximos, e um outro mais aberto e divulgável, que podia ser passado a escrito e transmitido mais abertamente. Temos como exemplo o Sermão da Montanha ou mais correcto o Sermão da Planície, proclamado ao público em geral e o Sermão da Ceia reservado apenas aos doze apóstolos por este ser altamente esotérico.

A tradição oral era uma prática muito enraizada, e isto ocorria não só nas Escolas sacerdotais mas também, e sobretudo, nas Escolas mistéricas: a transmissão de boca a ouvido, ou de mestre a discípulo, era a regra; em certos casos era mesmo rigorosamente vedada qualquer passagem a escrito dos ensinamentos que o Mestre proferia.

Se nos debruçarmos nos textos da Bíblia no N.T., podemos concluir que certos ensinamentos foram deliberadamente mantidos em segredo por Jesus e seus apóstolos, pois, como sabemos, eles realmente continham uma doutrina secreta e pretendiam mantê-la assim.

Quem sabe, lê claramente. Para quem não sabe, o segredo é real. Quem não sabe, detecta a presença do código, mas depois falta-lhe a “chave” para descodificar a mensagem. A forma clássica de passar mensagens secretas, a mais clássica no esoterismo, é o símbolo. Pode-se argumentar que o dicionário dos símbolos descodifica o seu significado, no entanto, o símbolo é polivalente e ambivalente. Por isso, perante um texto simbólico, para quem possui a “chave” deixa de ser segredo e a mensagem tal como uma flor, desabrocha em todo o seu esplendor. Para quem não tem a “chave”, apenas detecta a presença do símbolo.

O Evangelho de Marcos, o mais antigo dos sinópticos, está escrito, de uma maneira subtil, revelando, por exemplo, que a parábola do semeador foi concebida, não para revelar, mas para ocultar o verdadeiro significado da mensagem. Como podemos verificar, mais tarde, Jesus teve que explicar a parábola a seus discípulos:

“Quando Jesus se achou só, os que estavam junto dele com os apóstolos interrogaram-no acerca da parábola.

E Ele disse-lhes: A vós é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas. Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que se não convertam, e lhes sejam perdoados os pecados”Mc-4-10,11.

Outro versículo do Evangelho de Marcos esclarece a doutrina secreta de Jesus: “… e sem parábolas nunca lhes falava; porém tudo declarava em particular aos seus discípulos”.Mc. 4-34.

Reparemos que Jesus exerceu na maioria das vezes o seu ministério secretamente, factos que os evangelhos descrevem, mas não esclarecem. Muitas vezes antes de realizar uma cura, Ele falava com a pessoa à parte, confidencialmente, ou, se ia para onde o paciente estava, mandava todos saírem do aposento e entrava acompanhado dos discípulos mais próximos. Depois de realizar os milagres, Ele ordenava à pessoa envolvida que nada comentasse. Se Marcos excluiu do seu evangelho canónico o episódio de Lázaro, possivelmente com o objectivo de não relatar factos confidenciais, pergunto-me, que mais ele ou os outros evangelistas, omitiram?

Como Marcos escreve no seu Evangelho, Jesus falou por meio de parábolas de acordo com o discernimento dos ouvintes, e recebiam a palavra “segundo o que podiam compreender”. O Evangelho de Marcos considerado o mais antigo, contém, versículo por versículo, a menor quantidade de ensinamentos secretos. No seu evangelho, repete várias vezes, que o Senhor explicava tudo aos discípulos quando se achavam a sós.

Também Paulo, da mesma maneira, fala de verdades veladas reservadas aos “perfeitos”, ou “maduros”, ou seja, àqueles que foram iniciados nos mistérios mais profundos da doutrina de Jesus. Diz a este respeito: “E sei que esse homem -ignoro se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe! – foi arrebatado até ao paraíso e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir”(2ª Cor.12-3).

No entanto, as verdades a que se refere, não se encontram desveladas, em parte alguma nas suas Epístolas. Paulo, claramente domina um conhecimento esotérico que não é ensinado a todos. “ Considerem-nos, pois, servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. 1Cor. 4,1.

No século III, Orígenes afirmou que Jesus nosso Mestre nada deixou escrito. No Evangelho da Verdade, atribuído a Valentim, fala da transmissão da Verdade de Mestre a Discípulo, palavra falada e não a textos que não deviam ser vulgarizados, mas transmitidos somente a alguns discípulos.

Se o ensino esotérico vier a ser restabelecido nos próximos tempos, vai com certeza atrair estudantes pacientes e sérios e o ensino oculto também será, em breve, recuperado.

Após a Igreja Católica ter abandonado o ensinamento místico e esotérico, foi perdendo os seus paroquianos por não ter sabido acompanhar o desenvolvimento daqueles mais exigentes e ávidos de conhecimento, como acontece noutras religiões ou escolas de mistérios e, é de referir, que casualmente ou não, este facto, coincidiu com o aparecimento de certos ensinamentos e escolas místicas e também com todos os meios de comunicação e de opinião que passaram a estar ao alcance de todos.

Diz António de Macedo num dos seus livros, depois de fazer uma apreciação a um livro de Leonardo Coimbra, em que este advoga uma interacção entre o Homem e o Cosmos, o meu estimado professor diz: “Neste idealismo teognósico, quer queiramos quer não, Deus, apesar de “omni-inclusivo”, vai-se “enriquecendo” com a dinâmica cósmica que Ele mesmo, na Sua perfeição, estabeleceu para a final convergência Deus-Homem-Deus: “Sereis pois perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito” (Mateus 5,48) e mais à frente continua “ A ideia de “um Deus que evolui” é uma ideia comum a diversas correntes esotéricas, ao mesmo tempo que se adapta perfeitamente à ideia de um Deus pedagogo, que vai exercendo “catequese” nos sucessivos estágios históricos da evolução humana, revelando os mistérios que o ser humano vai sendo capaz de os apreender”. (O Neoprofetismo e a Nova Gnose, pag. 19)

Não posso deixar de fazer um comentário a este texto tão interessante. No conceito Rosacruz dos Cosmos de Max Heindel, este escreve que Cristo é o Iniciado mais elevado, possuindo os sete veículos desde o Mundo do Espírito de Vida até ao Mundo de Deus e escolheu Jesus, um alto iniciado, para obter mais cinco veículos para a Sua manifestação física (começando com o corpo Físico até à região do Pensamento Concreto), completando desta forma os doze veículos, o que permitiu o contacto directo de Cristo Jesus com a humanidade. Já Jeová o Espírito Santo, apenas possuiu sete veículos, começando na Região do Pensamento Abstracto indo até ao princípio do Mundo de Deus. Esta exposição de Max Heindel vem corroborar o que o António de Macedo escreve. Ou seja, a ideia altamente esotérica de que um Deus evolui, é pedagogo, que vai exercendo catequese e enriquecendo-se, acompanhando a evolução humana, desvelando os mistérios só àqueles que estão preparados para o receberem, é uma conclusão que faz todo o sentido, na medida que o Universo está sempre em movimento, toda a matéria ou energia vai-se renovando, está numa constante evolução e renovação. Cristo revestiu-se da humanidade de Jesus para ajudar a evolução humana, para ficar próximo dos seus filhos, do Seu rebanho, para exercer a tal “catequese” através dos Seus ensinamentos e parábolas. “Eu Sou o Bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”(Jo 10-11)


(o detalhe do mapa da árvore dos descendentes de Abraão)

Theodotus, doutrinador gnóstico do século II D.C., num dos seus escritos preservados por Clemente de Alexandria, diz o seguinte: “O Salvador ensinou os apóstolos, primeiro em figuras e mistérios; depois, em parábolas e enigmas, finalmente e em terceiro lugar, de uma maneira clara e directa, quando estavam sós”. É interessante perceber nesta frase que para chegar à gnose (conhecimento e sabedoria), os próprios discípulos passaram por estes estágios.

Continuando a desenvolver este tema, vou transcrever um trecho muito instrutivo de S. Clemente, Mestre de Orígenes, ambos testemunhas importantes que afirmam a existência na Igreja Primitiva, dos verdadeiros Mistérios: “O Senhor permitiu comunicarmos estes Mistérios divinos e esta santa luz aos capazes de os receber. Certamente Ele não revelou à massa o que não pertence à massa. Mas revelou os Mistérios a uma minoria capaz de os receber e concordar com eles. As coisas secretas confiam-se oralmente e nunca por escrito, e o mesmo se faz com Deus. E se me vierem dizer: “Não há nada de secreto que não deva ser revelado, nem nada oculto que não deva ser desvendado”, eu responderei, que àquele que escuta em segredo as coisas secretas, estas mesmas lhe serão manifestadas. (…) Ao homem capaz de observar secretamente o que lhe é confiado, o que está velado lhe será mostrado como verdade; o que é oculto à multidão, será manifestado à minoria. Os Mistérios são divulgados sob uma forma mística afim de que a transmissão oral seja possível; mas esta transmissão será feita menos por palavras do que pelo seu sentido oculto. E continua: “Não temos a pretensão de explicar suficientemente as coisas secretas, mas unicamente recordá-las para que algumas não nos escapem, ou para não perdê-las de todo”.

Este texto bastaria para provar a existência na Igreja primitiva, de um ensinamento secreto. No seu livro, “Os Mistérios da Fé Que Não Devem Ser Comunicados a Todos” Clemente declara que “é necessário lançar o véu do Mistério sobre os ensinos orais dados pelo Filho de Deus, porque seu trabalho poderia cair sob os olhos de pessoas destituídas de sabedoria”.

Orígenes era de opinião e declarava que, se certas doutrinas eram secretas, muitas outras eram públicas; e que este sistema de ensinos exotérico e esotérico, adoptado pelos cristãos, era usado igualmente pelos filósofos.

Os filósofos, como Platão, Aristóteles, Sócrates e Pitágoras já detinham ensinamentos exotéricos e ensinamentos esotéricos. Os filósofos instituíram os Mistérios porque “Não era preferível, para a santa e bem-aventurada contemplação das coisas reais, que ela fosse oculta?” Pitágoras, tal como Sócrates, não deixaram nada escrito e já no tempo de Aristóteles o conhecimento que tínhamos dele era mais lendário do que histórico. Consta, que este fundou uma Irmandade sujeita ao segredo, onde se ensinava a Philo-Sophia para realizar uma purificação espiritual a fim de que a alma humana fizesse a união com o divino (casamento místico?) com técnicas especiais, onde estavam implícitos os princípios matemáticos e os símbolos místicos.

Num texto de Orígenes este diz que Pitágoras ensinava secretamente doutrinas que não deviam chegar aos ouvidos profanos e não purificados.

Os apóstolos também aprovaram que os “mistérios da Fé fossem velados”, porque existiam “ensinos para os perfeitos”. (Col.1,9-11 e 25-27).

S. Clemente depois de ter dissertado longamente sobre certos escritores gregos e ter revisto a filosofia, declara que a gnose “comunicada e revelada pelo Filho de Deus é a Sabedoria… Ora a gnose é um depósito que chegou a alguns homens por transmissão: ela tinha sido comunicada oralmente pelos apóstolos”. Num outro texto, Clemente fala para Teodoro dizendo-lhe que Marcos “não divulgou as coisas que não deveriam ser reveladas, nem escreveu os ensinamentos Hierofânticos do Mestre”.

Max Heindel diz que a humanidade está a movimentar-se, lentamente, na direcção certa, conduzida pelas diferentes religiões, mas existe uma classe sempre crescente que sente as asas do corpo-alma brotarem, pessoas que têm uma necessidade interna de alcançar o Reino de Deus. Embora alheias a qualquer ideal definido, sentem uma verdade maior e uma luz mais evidente do que aquela que a Igreja irradia; estão cansadas de parábolas e anseiam por aprender os factos essenciais aos pés de Cristo.

A Fraternidade Rosacruz, começou com o propósito de chegar a essa classe de pessoas, mostrando-lhes o caminho da iluminação, ajudando-as a construir o seu corpo-alma e a desenvolver os poderes anímicos que lhes permitirão entrar conscientemente no Reino de Deus e a obter o conhecimento/gnose directo. Mas adverte, que, mesmo sob as mais favoráveis condições existentes, o progresso para obter o conhecimento deve ser lento. No entanto, se o aspirante for perseverante em fazer o bem, isso pode ser realizado.

Passando a outro grande escritor e notável clarividente, Leadbeater, Bispo da Igreja Católica Liberal, num dos seus livros, faz uma longa exposição sobre o tema do ocultismo. Faço aqui uma chamada de atenção para a distinção entre o ocultismo e o místico: o ocultista é o que pesquisa as forças misteriosas ou ocultas da Natureza, fazendo apelo ao intelecto; o místico é aquele que busca o conhecimento divino através da fé e do coração; ambos procuram o “tesouro da sabedoria e do conhecimento” e como diz S. Paulo: A fim de conhecerem o mistério de Deus, isto é Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”. A sabedoria e o conhecimento dão-nos o entendimento do que é a verdadeira Gnose.

Leadbeater advoga que existe um grande equívoco quando acusam os ocultistas de velar o conhecimento a toda a criatura, a fim de que ele próprio possa ser o único detentor da sua posse. Ele concorda que o conhecimento adquirido por alguns estudantes dedicados, às vezes, não é desvelado ao público em geral, por este não estar ainda preparado para adquirir o conhecimento. Já S. Paulo dizia “ Quanto a mim, irmãos, não pude falar-vos como a simples homens espirituais, mas como homens carnais, como criancinhas em Cristo. Foi leite que vos dei a beber e não alimento sólido, que ainda não podíeis suportar”(1 Cor-III-1,2).

(esclarecimentos em pleno ágape após a intervenção inicial)

Muitas pessoas são de opinião de que não devia haver segredo, mas que tudo pudesse ser revelado ou descoberto e ser colocado à disposição da humanidade, como acontece com a Ciência. No Ocultismo, como em outras ciências, “conhecimento é poder” e não é aconselhável colocar poder nas mãos de um homem até que haja alguma garantia de que ele será empregado bem e de modo altruísta. Sabemos que certas partículas ínfimas do conhecimento passaram a ser do conhecimento público e já constatamos como o mundo está longe de ser digno de tão pequena dádiva. ( ex: Reiki, Astrologia, Tarot etc)

Todos sabemos que o conhecimento pode ser adquirido por todo o estudante sério que se aplica ao estudo e auto desenvolvimento, que tenha condições sólidas para percorrer a Senda do Conhecimento. Este é um trabalho longo e requer muita disciplina e paciência. No meu modesto entender, só depois de ter percorrido um caminho virtuosamente exotérico é que se estará em condições de se candidatar ao esotérico, porque já se adquiriu a consciência e discernimento como usar o Conhecimento. (“ A sabedoria não entrará numa alma maligna nem habitará num homem sujeito ao pecado” Sabedoria I,4 )

As verdades ocultas vão a pouco e pouco sendo conhecidas, como já foram em tempos passados. Faz parte do plano Cósmico que elas sejam conhecidas, porém, não prematuramente, com receio de que o prejuízo causado seja maior e de que sejam poucos os que poderiam ser poupados do mal que daí viesse.

(A mesa da oradora)
Conclusão

Para concluir, pressupõe-se que o verdadeiro Cristianismo Esotérico não foi ainda revelado porque a humanidade ainda não ultrapassou o estado materialista em que se encontra, embora tenha sido revelado secretamente ao longo dos anos a alguns, porém, por ordem do próprio Cristo, não tem sido revelado publicamente pelas razões atrás apresentadas. (Mt. XVII-9).

Cristo só escolheu alguns apóstolos a quem passou “ensinamentos secretos” (Mt XIII,11-13), os quais vivenciaram situações extraordinárias como a da Transfiguração (Lc, IX 28,36) que termina assim: “Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto”. Ele que era o Mestre dos mestres, sabia que nem todos estavam preparados para receber e entender certos mistérios, por isso só escolheu aqueles que sabia terem preparação para serem confrontados com situações tão sublimes.

Para concluir não resisto em transmitir o texto de abertura de “A Doutrina Secreta dos Rosacruzes” que reza assim: “Não tentes estudar a mais elevada de todas as ciências se de antemão não decidiste enveredar pela senda da virtude; os incapazes de sentir a verdade não entenderão as minhas palavras. Só os que ingressam no reino de Deus compreenderão os mistérios divinos, e só apreenderão a sabedoria à medida da capacidade que tiverem para receber, nos seus corações, a divina luz da verdade. Para aqueles cuja vida consiste no mero exercício do intelecto, os divinos mistérios da Natureza não serão compreensíveis, porque as palavras que projectam a Luz não são ouvidas pelas suas almas. Somente aquele que se renuncia a si mesmo pode conhecer a verdade, porque só é possível compreender a verdade na região do bem absoluto. Tudo o que existe é fruto da actividade do Espírito.

E mais adiante acrescenta: O intelecto só por si não conduz à sabedoria. O Espírito tudo conhece, porém nenhum homem conhece o Espírito. A inteligência humana só pode compreender as verdades espirituais quando a sua consciência entra no Reino da Luz espiritual. Por fim lança a esperança: Se o fogo interno é cultivado e alimentado, destrói os elementos grosseiros, atrai outros mais etéricos, faz o homem cada vez mais espiritual e concede-lhe poderes divinos”.

Depois do exposto e sobre o qual tenho vindo a reflectir bastante, continuo com as mesmas dúvidas: Será que o conhecimento é para todos?

Assim termino esta apresentação, pedindo desculpa a todos os presentes do meu pouco saber e da minha ignorância, agradecendo a todos a paciência em me terem escutado.

(Depois do almoço debate  a mesa redonda informal com João Fernandes)

 

Tuesday, October 12, 2010

Isabel Girão vai animar a Tertúlia de 23 de Outubro com o tema: Esoterismo e Cristãos




Resumo do Livro de Isabel Girão
Reflexões de uma Cristã a partir d’O Código Da Vinci


Textos gnósticos e históricos, a figura de Maria, Mãe de Jesus, e de Maria Madalena, os Templários, os Cátaros, a Última Ceia, o casamento de Jesus e a Sua descendência, a interpretação d ‘O Código Da Vinci são caminhos trilhados por uma alma sincera, incansável buscadora da verdade. Na sua análise, porém, a autora não é dogmática: deixa ao arbítrio do leitor a escolha das suas próprias respostas, ante os elementos de reflexão criteriosamente apresentados neste livro.